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Aparentemente, o Brasil nada tem a ver com a atual guerra na lugoslávia. Mas basta pensarmos globalmente para verificarmos que tem. Não só o Brasil como a América do Sul. E muito.

Independentemente do que aconteceria entre sévios ou kosovares, duas constatações são inevitáveis. Primeiro, estamos diante de um continente, a Europa, ainda marcado pela intolerância étnica. Segundo, esse continente usa da violência para equacionar seus conflitos políticos.

A Intolerância étnica — muitas vezes, intolerância religiosa — teve seu auge nas agressões dos supostos arianos contra os judeus. Mas, infelizmente, vive até hoje, no cotidiano de franceses contra árabes, de alemães contra turcos, de ingleses contra hindus, de sufços contra portugueses, de serviços contra croatas. Sem falar na latente intolerância que marca a convivência entre populações da antiga União Soviética.

Á violência como resolução do conflito político aparece não só nas duas grandes guerras (que eram europeias e se fizeram mundiais) como no terrorismo de católicos e protestantes na Irlanda ou bascos e espanhóis na Espanha, por exemplo. Temos certeza de que esses fatos não têm o apoio da imensa maioria dos europeus. Mas persistem, mesmo sem apoio amplo.

Faça-se a comparação com Brasil e América do Sul. Nas últimas décadas, aprendemos a resolver conflitos políticos pelo Direito e pela negociação. Por exemplo, os graves conflitos de frontei-
ra entre Equador e Peru. O impeachment de presidentes no Brasil e no Equador. Agora, a solução constitucional no Paraguai. Fora as guerrilhas recorrentes nos Andes, não somos um continente de
reza econômica, não nos tem levado à desintegração do país.
guerra e de terrorismo.

E oportuno fazer essas comparações porque estamos acostumados — talvez ainda colonizados— a ver o Primeiro

Estamos acostumados
a ver o Primeiro Mundo
como ideal a alcançar.

Isso, em geral, obscurece
as nossas qualidades

Nem o nosso racismo nos leva a mas-
sacres, bombardeios, exodus, refugi-
dos, nada que se compare com a cala-
midade que hoje nos vem da Europa. O
racismo que existe, sobretudo de natu-

Mundo como paradigma, um ideal a alcançar. O que, em geral, obscurece nossas próprias qualidades, nossa maneira melhor de ser quando comparada com a de outros continentes.

Assim, seria de
desejar um pouco mais de humildade dos quase mensais relatórios e denúncias sobre violação de direitos humanos, oriundos justamente dos governos e da sociedade desses mesmos países europeus e dos Estados Unidos. Páfes que, com essa guerra, violam tals úlrei-tos e praticam a intolerância étnica em escala.

Faz parte de nossa responsabilidade como nação não só receber esses relatórios, avaliá-los e fazer nosso maior esforço para combater o racismo e a violação de direitos humanos que se dão internamente, mas também —se-jamos do governo, da mídia ou meros cidadãos— o caminho inverso: denunciar essa guerra como evidência da incapacidade de superar a intolerância étnica e a violência política por parte da diplomacia e da cultura desses países do Primeiro Mundo. Um exemplo a evitar, a condenar e a exigir imediata solução. Nesse caso, o Primeiro Mundo somos nós.

(Joaquim Falcão)

_13/04/1999_