JOAQUIM FALÇÃO
A nomeação de Cláudia Costín para ministro da Reforma Administrativa evidencia que estamos atrasados. As mulheres estão ausentes de quase todos os cargos de destaque, no governo e na sociedade. Tanto no Poder Executivo quanto no Legislativo ou Judiciário. Tanto nas empresas quanto nas associações de classe.
Nenhuma mulher comanda uma importante empresa estatal, privatizável ou ameaçada de. Nem faz parte da dire-
toria da Petrobrás, da Telebrás, do Banco do Brasil ou do Banco Central,
por exemplo.
Os governos estaduais também estão atrasados. Com exceção de Roseana Sarney, no Maranhão, nenhuma mulher é governadora de Estado. Nenhuma é presidente de qualquer das 27 Assembléias Legislativas estaduais, ou presidente de qualquer dos Tribunais de Justiça estaduais.
Comecemos com o governo federal. Não havia até agora nenhum ministro de Estado mulher. Ainda não existe mulher no Supremo Tribunal Federal. Nem no Superior Tribunal de Justiça, no Tribunal Superior Eleitoral, no Tribunal Superior do Trabalho ou no Tribunal de Contas da União. Sem falar no Superior Tribunal Militar, na Presidência ou na vice-presidência da República. Também não são mulheres o presidente e vice-presidente da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal.
Vamos para a sociedade.
Nenhuma mulher é presidente de uma confederação sindical ou patronal. Nenhuma mulher preside qualquer das 27 federações de indústrias dos Estados. Nenhuma mulher foi ou é presidente de sindicatos de metalúrgicos. Nem CUT nem Fiesp.
Essa ausência das mulheres no governo começa a ser combatida em nível federal com um programa que visa, em dois anos, igualar as oportunidades de acesso aos cargos publicos.
Nenhuma mulher faz parte da diretoria da ABI ou da diretoria do Conselho Federal da OAB. Mais ainda, nenhuma mulher é presidente nacional de qualquer partido político, de situação ou de oposição.
A ausência é minimamente amenizada no setor privado. De cada 100 pessoas que trabalham, 40 são mulheres. Mas só ocupam 100% dos postos de presidência em médias e pequenas empresas e 40% nas grandes. Nenhuma mulher é presidente de qualquer dos grandes jornais ou de nossas redes de televisão. Algumas, porém poucas, começam a conquistar situações de poder real. Kati Almeida Braga, no Banco Icatu, Marluce Dias da Silva, na TV Globo, e Nelida Piñon, na Academia Brasileira de Letras, entre outras. Mesmo assim, é difícil dizer que estejamos diante de tendência consolida-
da.
Nesse cenário, Ruth Cardoso desta, com sua liderança, elo entre governo e sociedade. Uma visão simplista debitaria essa situação à tradição “machista”
brasileira. O que justifica muito, mas explica pouco. É importante focalizar-mos com mais precisão os obstáculos à chegada das mulheres ao poder. São múltiplos. Focalizemos dois, entre outros.
O primeiro seria o obstáculo da qualificação técnica. As mulheres não estariam suficientemente formadas ou preparadas para o poder.
Outro obstáculo é o voto.
O eleitor, mulher
inclusive, provavelmente
ainda confia mais no
homem que na mulher
são. Mas quanto mais alto o cargo, menor a presença das mulheres. Pesquisas do Iuperi (Instituto Universitario de Pesquisas do Rio de Janeiro) sobre o judiciário indicam acelerada e progressiva feminização da Justiça.
Esse argumento não procede mais. As mulheres já são maioria na população economicamente ativa, e 42% concluíram o segundo grau, enquanto apenas 26% dos homens o fizeram (além disso, 55% das mulheres permanecem estudando durante 11 anos ou mais, contra 45% dos homens).
Outro obstáculo e o voto. O ideal da igualdade de oportunidades ainda não se traduziu em votos. O eleitor, mulher inclusive, provavelmente ainda confia mais no homem do que na mulher.
Na administração federal, elas já representam 44% dos funcionários, embora apenas 39% dos cargos de comis-
As próximas eleições representam excelente oportunidade para tentar rever-
ter essa atitude, o que não será porem conquistado por imposição legal. As
cotas de 20% de mulheres candidatas, instituidas pela lei eleitoral, não têm si-
do suficientes para resolver a questão da representatividade teminina. Varios partidos não conseguem cumprir a lei
por talta de candi
atas (ou preenche
ram as listas com
nomes teminnos,
mas não deram o
apoio necessario ao
sistesso das candi
daturas).
Vencem as elec
ções mulheres que
ha muito a exer-
cem alguma liderança em comunidades, sindicatos e partidos. Ha pouca renovação desses quadros. Nem mesmo no PT do Rio de Janeiro, que adota a co-ta de 30% de mulheres na composição das direções partidarias, verificou-se o despontar de novas lideranças com potencial eleitoral.
Estamos atrasados. Mas tudo é questão de tempo. A tendência internacional e a força da democracia brasileira favorecem o progressivo acesso das mulheres ao poder. A partir daí, as perguntas que nos interessam são apenas duas: falta muito para que isso ocorra? O Brasil poderá então esperar que o poder vá ser mais bem exercido?
(Joaquim Falcão)
_24/06/1998_