Antes da batalha parlamentarismo versus presidencialismo se transformar na grande questão da política nacional, só 0,2% das lideranças comunitárias e 0,8% dos prefeitos de Pernambuco consideravam-se questão prioritária. Numa lista de 33 prioridades, a comunidade a colocava em penúltima. Estes dados lembrados por Alexandre Moura, da Fundação Joaquim Nabuco, ajudam a compreender a perplexidade do povo brasileiro diante da sua elite política.

A disputa interna do poder, e não as questões sociais, é ainda o principal objeto da política. Inclusive, da política municipal. Enquanto os prefeitos pernambucanos consideravam prioritárias as questões da reforma tributária e da autonomia municipal, isto é, a disputa de poder entre o federal, o estadual e o municipal, a comunidade priorizava as questões de desemprego, saúde e menor abandonado.

As explicações para esta desassociação entre a elite política e o povo brasileiro são muitas. Por exemplo: a ausência de instituições públicas e partidos políticos está
veis, o isolamento de Brasília, os anos de autoritarismo antieleitoral, e até mesmo o papel da grande imprensa. Concedendo muito mais espaço às disputas da luta interna do poder, do que às reivindicações e ações populares e comunitárias.

Neste momento não interessam explica-
ções. Nem encontrar culpados vencidos ou
culpados vencedores. Diante da evidente
desassociação entre o povo e a política,
todos perdem: PMDB e PFL, Parlamentar-
ristas e presidencialistas. Elite política e
militar, a imprensa e os partidos.

O povo está perplexo com uma classe política que reduziu o exercício do poder à batalha do regime e do mandato. Mais ainda ficará se entrar em cena agora a questão de blocos e partidos. Será uma loucura. Aliás, não é loucura exatamente o processo pelo qual a mente se descola do real? O processo pelo qual se justifica um outro “real”.

(Joaquim Falcão)

_29/03/1988_