Nesta semana, o governador Fernando Collor dirá ao Judiciário que não paga aos marajás. Quanto mais a intervenção em Alagoas se aproxima legalmente, mais longe parece estar politicamente. É que o ato final é o presidente Sarney assinando um decreto nomeando um interventor, a desembarcar nas Alagoas com uma mala de dinheiro. E se Collor continuar a não pagar, este ato terá que ser mensal. É difícil visualisá-lo. Acarretará, via Embratel, um ônus político quase insuportável ao Supremo e ao presidente Sarney.

É bem verdade que o presidente estará apenas cumprindo a ordem que receberá do Supremo. Não terá alternativa. Estará respeitando a lei, mesmo que imoral, e o Judiciário. Tudo bem. Difícil será traduzir esta sutil mensagem jurídico-política para milhões de brasileiros.

Para milhões de telespectadores a mensagem será provavelmente outra. Mais ingênia, menos culta e menos complexa:

Collor não pagou, mas o Supremo e Sarney pagaram os marajás. Collor coloca uma bomba de médio alcance para Brasília tentar desarmar.

Mas Collor não pode ainda cantar vitória. Com a recusa de Sobral Pinto, explicitou-se um risco crescente em sua estratégia. Para produzir dividendos políticos, o combate à imoralidade legal e administrativa tem que ser mais sutil. Do contrário, é imoral manipular a moralidade. Sobretudo em benefício eleitoral. Collor pode estar indo com muita sede ao pote. Se passar do ponto não enviará a mensagem que pretende: a necessidade de combater os marajás. Enviará outra; o uso indevido dos meios de comunicação e dos valores morais da população. Todo cuidado é pouco. () tiro pode sair pela culatra.

(Joaquim Falcão)

_07/03/1988_