A maior contribuição de Gilberto Freyre está na abertura de novos caminhos na análise da realidade social brasileira

uitos são contra. Muitos são a favor. Pode-se concordar, e até discordar. Mas todos estão unidos: não se pode ignorar Gilberto
Freyre. Por que? Por que “Casa-Grande & Senzala” é considerado, e cada vez mais, um livro referencial para o Brasil conhecer melhor o Brasil? Assim considerado, até mesmo pelos que discordam! Que qualidade misteriosa é esta que obtém ao mesmo tempo elogio, respeito e discordância?
As respostas são múltiplas. Permitam que focalizem uma, entre tantas. Uma resposta que pretendo moldar a partir da interpretação de dois episódios vividos por Gilberto Freyre. Ambos focalizando a história do pensamento social brasileiro. Mas ambos contrapondo o pensamento sociológico de Freyre ao pensamento jurídico dominante. Contrapondo o sociólogo aos juristas. Em 1935, Freyre pronuncia na Faculdade de Direito do Largo São Francisco uma conferência com o sugestivo título de “Mais Análise e Menos Doutrina”. Em 1946, na campanha pela redemocratização, Freyre critica a cultura jurídica decadente da Faculdade de Direito do Recife. Os alunos de lá reagem. Pelos jornais, chamam Gilberto de “meteco”. Quer dizer, o estrangeiro que não pertence à cidade. Intrometido, ou enxerido, como se diz no Nordeste. Naquela época, tentaram reduzir as distantes relações entre Gilberto e a Faculdade de Direito do Recife a questões pessoais. Não eram questões pessoais não. Eram indícios da disputa que se travava sobre os caminhos do pensamento social no Brasil.
De fato a nível das idéias sociais, as relações entre Freyre e nossos juristas nunca foram intensas. Nem em São Paulo, nem no Recife. Nem em lugar algum, provavelmente. Se não foram inamistosas, pelo menos foram ralas e formais. Pudera! Sempre foram relações concorrentes. No fundo, uma disputa pelo poder. A disputa pelo poder saber. Ou seja, a disputa pelo poder de explicar o Brasil. Fácil perceber alguns aspectos desta concorrência.
Até o começo do século, por exemplo, o Brasil foi (e talvez ainda continue sendo) o país dos bacharéis. De direito, é claro. Detinham o poder econômico e político. Eram os profissionais, digamos, prioritários. Detinham também o poder de saber. O poder de produzir o saber sobre o social. Em outras palavras, eram os juristas que prioritariamente tentavam explicar —e assim a moldavam— a realidade social brasileira. As teorias sociais confundiam-se com as doutrinas jurídicas. Sua instituição principal eram as faculdades de Direito. Este poder imenso de explicar o social brasileiro foi ameaçado por “Casa-Grande & Senzala”. Como?
Outra vez, as respostas podem ser múltiplas. Permitam-me focalizar, uma, entre tantas. Hoje é senso comum que o jurista é o profissional especializado em produzir e aplicar normas. Ou seja, a matéria-prima do jurista, do advogado, é basicamente o comportamento social. Não como de fato é, mas como deve ser. Hoje é senso comum que a matéria-prima dos cientistas sociais (antropólogos, sociólogos e cientistas políticos) é basicamente o comportamento social como de fato é. Aqueles são os profissionais basicamente do dever ser, estes, basicamente do ser. Mas nem sempre foi assim. A matéria-prima dos juristas era dupla: tanto o dever ser, quanto o ser. Não raramente o dever ser formalizada, idealizava e dogmatizava o ser. A norma se impunha, quase substituía, a relação social concreta. Quando não a inventava, importava ou engessava.
No fundo, o pensamento social era impregnado pelas diversas formas do idealismo que sempre moldou o pensamento jurídico. De 1827 até hoje, Seja através do jusnaturalismo metafísico e católico, do evolucionismo liberal e ateu, ou através do normativismo lógico-formal tecnicista.
Quando Freyre pede menos doutrina e mais análise, no fundo estava propondo dissociar o conhecimento que “produz” o dever ser, do conhecimento que “produz” o ser. Mais ainda. Indica que o método de um difere do método de outro. Ser “douto”, ser autoridade, não é suficiente para produzir um conhecimento social verdadeiro. A doutrina é um argumento de autoridade, mas necessariamente não é o argumento da verdade social. Fazia-se preciso um conhecimento fundamentado não no ato-de-fé, como no jusnaturalismo, ou no consenso formal, como no evolucionismo liberal, ou no dogma posto fora de questão, como no

Gilberto Freyre mostra a Francisco de Assis Barbosa e Carlos de Laet o exemplar de um livro sobre Gandhi
normativismo lógico-formal. Fazia-se preciso um pensamento social com base na análise, no caso, em uma análise antropológica e sociológica, que permite penetrar no real social mais “verdadeiramente”. Permite captar as relações sociais como elas são. E não como deveriam ser.
##### Meteco
Quando chamam Gilberto de “meteco”, em vez de argumentar justificando ou criticando a “decadência da cultura jurídica”, os alunos apenas desqualificam o interlocutor. Fogem da questão. No fundo, estão a dizer: não se meta nesta seara, a seara de produzir o conhecimento sobre a realidade brasileira. Seara com métodos, profissionais e instituições solida-mente definidas, das quais Gilberto Freyre não era membro.
A força de “Casa-Grande & Senzala” é justamente esta. No momento adequado explicitou a tendência para a desidealização do pensamento social brasileiro. Com isto, abriu as portas para interpretações concorrentes e conflitantes, sobre a realidade brasileira. Todas mais voltadas para a análise, com métodos mais adequados a um conhecimento empíricamente fundamentado. O mérito é inaugurar uma nova arena de combate de ideologias sociais. Arena disponível a solidários ou contrários.
Não se pode, nem se deve, atribuir a uma só pessoa ou a uma só obra, a capacidade de inaugurar uma nova sociologia, ou a moderna sociologia brasileira. Mas não se deve negar o mérito de “Casa-Grande & Senzala”, em simbolizar um momento de síntese. Síntese, porque não apenas deixa clara a insuficiência do pensamento social então dominante enquanto pensamento social de fundo idealizador, para explicar o Brasil, como vai mais além. Propõe um caminho novo. Deste caminho novo pode-se discordar. Mas do abrir de portas, para solidários ou contrários, não. Neste sentido, “Casa-Grande & Senzala” é ao mesmo tempo crítica e proposição. Negação e afirmação. Abrir e fechar. Destruição e construção. Ou como diria o próprio Gilberto, mestre na arte de usar os advérbios, trata-se de um livro diante do qual deve-se ter uma atitude críticamente construtiva sobre o pensamento social brasileiro.
[ASSINATURA NÃO DETECTADA]
_24/07/1987_