O que distinguiu esta reunião da SBFC de Belo Horizonte das demais não foi apenas o debate científico propriamente dito. Foi um outro debate que se travou paralelamente: Alguns momentos de forma latente, outros de manelra implicita. Foi o debate sobre as relações entre o governo e a comunidade científica. Questão fechada há muitos anos, mas agora reaberta. O que não significa que a comunidade científica aderiu ao governo da “Nova Republica”. Nada disto. A questão é mais complexa. Parte da constatação que com a franqueza dos pronunciamentos dos ministros presentes, com a participação dos órgãos federais quase sempre ausentes no passado, e com a disposição do governo Sarvey levar a série a pesquisa científica, como previsto inclusive no 1.º Plan Nacional de Desenvolvimento, portas foram abertas. Espíritos foram desarmados. Nem mais a comunidade científica desconfia do governo, nem o governo da comunidade científica. Ficou patente um mútuo crédito de confiança.
O governo volta de Belo Horizonte com um crédito de confiança. Honrá-lo significa destinar recursos financeiros para a pesquisa científica para a aplicada, ampliar a liberdade de trabalho e de informação dos cientistas e fortalecer as instituições de pesquisa e de
fomento. O que não será fácil. Implica em redesenhar a política industrial, nuclear, agrícola, social e cultural a como estimuladoras do saber científico nacional. Implica em proteger os recursos de ciência e tecnologia das pressões de redução do déficit público.
Os cientistas voltam de Belo Horizonte também com um crédito de confiança. Honrá-lo significa saber transformar suas teorias em práticas sociais. Transformé-las em projetos capazes de operacionalizar programas de sociedade civil e do governo: federal, estadual ou municipal. Implica balancear a atitude crítica necessária ao desenvolvimento científico com a atitude criadora e inovadora de que a Nação necessita. Parece claro que a autonomia indispensável da comunidade científica não se fudamenta apenas no renovado exercício da crítica. Fundamenta-se também na retomada da capacidade de propor projetos, participar de decisões governamentais e eventualmente contribuir para sua implementação. Esta capacidade foi retomada em Belo Horizonte.
(Joaquim Falcão)
_Recife, 18/07/1985_