Já se disse que o que mais caracteriza a direita é sua sua renovada capacidade de se unir. E o que mais caracteriza a esquerda é sua permanente disposição para se desunir. Esta disposição de quando em vez está presente nas atuais eleições para prefeito do Recife. Na verdade, sobre as oposições em Pernambuco pesam dois espectros. Primeiro, o espectro das eleições de 82, onde, ainda que não tenha sido dominante (pois Marcos Freire foi derrotado fundamentalmente pela vinculação dos votos), a desunição das oposições contou. Contou então, como pode contar novo agora. Segundo, o espectro das ambições e (divergências pessoais prevaleceram sobre os interesses partidários e populares. Ambições com as quais os eleitores que não têm nenhum compromisso.
Os principais líderes do PMDB — Marcos Freire, Miguel Arraes, Jarbas Vasconcelos e Pelópidas Silveira — estão conscientes destes dois espectros e pouco a pouco procuram afastá-los. Não há como fugir. Constatação simples: as oposições detêm provavelmente a maioria dos votos dos recifenses. Só não elegerão o prefeito se forem incompetentes, dilaceradas, conspiratórias e antipopulares. Aliás, residiria justamente no reconhecimento desta força eleitoral o fato que de quando em
vez líderes da Frente Liberal acenam indiretamente com a possibilidade de uma composição com o PMDB, tentando reativar a Aliança Democrática no plano municipal.
Ainda esta semana, o governador Roberto Magalhães acenou com a possibilidade de uma aliança com o PMDB, embora afirmasse que não tomaria a iniciativa. Trata-se, provavelmente, de uma aliança com o PMDB que apóia a candidatura de Sérgio Murilo, que disputa com Jarbas Vasconcelos a indicação. Não é segredo para ninguém que o Palácio das Princesas mantém permanentes contatos com o deputado Sérgio Guerra, líder do PMDB na Assembléia. A dificuldade desta eventual aliança é que ela praticamente define em 85, as eleições para governador em 86. Tanto no PFL quanto no PMDB.
A desvinculação das eleições de 85 para prefeito, das eleições de 86 para governador, e a escolha de um candidato eleitoralmente compa- tível com a hegemonia das oposições no Recife são as condições para qualquer composição. Estes dois pressupostos interessam a muita gente.
(Joaquim Falcão)
_Recife, 30/06/1985_