Pouco a pouco os comunistas entram no quotidiano da vida política nacional. Terça-feira, a frente Roberto Freyra e Glocondo Dias, o PCB foi recebido no Planalto pelo presidente José Sarney No Recife, na semana passada, as três principais correntes dos comunistas brasileiros foram convidadas a participar pela primeira vez de debate público, em seminário realizado pela Universidade Federal de Pernambuco. O PC do B, segundo os organizadores, recusou-se a participar. Mas lá estavam Carlos Campos, o principal líder nacional do MR-8 e Givaldo Siqueira, representando o PCB.
A primeira grande consequência da legalização dos partidos comunistas será o progressivo desaparecimento da dupla militância. A militância oficial, feita nos partidos de oposição — PMDB, PDT e PT — ou nas associações da sociedade civil. E a militância clandestina agora não mais se separam. O MR-8, segundo Cláudio Campos e Edvaldo Nunes Cajá, não se constituirá logo em partido. Será apenas uma associação civil. Entendem que o momento é de frente partidária, como também é preciso fôlego para enfrentar as urnas.
Para conquistarem o poder como partido políticos, os comunistas terão alguns obstáculos a enfrentar. O primeiro, comum a qualquer
novo partido, comunista ou não. Sendo os partidos obrigatoriamente partidos nacionalis, o volume de recursos financeiros, competência organizativa, alianças políticas e militâncias partidárias não permite que se construir um partido da noite para o dia. O segundo diz respeito ao fato de que na democracia a força dos partidos advém de resultados eleitorais. Talvez por isto mesmo alguns deputados comunistas prefiram ainda a dupla militância. Sem a legenda do PMDB ou PT terão dificuldades em se eleger. Acrescente-se que eleitoralmente no Brasil nunca vingou um partido classista. Do governo ou da oposição, nosso partido são eleitoralmente pluralistas. Isto é, atingem a todas as faixas do eleitorado, o que obrigará aos comunistas uma flexibilidade doutrinariamente desafiante. Fialmente, como lembrou o professor Fernando Azevedo, numa sociedade que se quer aberta, os conflitos não são sempre reduíveis a conflitos entre burguesa e operariado. A situação da mulher, do negro, do índio, da ecologia explicitam conflitos captáveis por todos os partidos
(Joaquim Falcão)
_Recife, 30/05/1985_