Mensalmente, na praça de Nova York os pequenos bancos norte-americanos negociam seus créditos relativos a emprestimos feitos pelo Brasil. Estes bancos não querem mais ficar com estes créditos em carteira, e passam adiante. Até aí, tudo bem. O importante porém é verificar que estes créditos são vendidos com deságio. Um deságio calculado em volta de 20%. Quer dizer, vendem o que formalmente valo cem, por apenas oitenta. Em outras palavras, estes bancos consideram mais seguro receber menos agora, em troca do que consideram improvável; receber tudo depois. E a lei do mercado. Ingrata, é verdade. Por que no fundo revela a descrença dos bancos de que o Brasil desenvolverá sua economia de maneira capaz de pagar, no tempo e condições de hoje, sua dívida externa de amanhã. Parafraseando o ditado, assim como é mais seguro um pássaro na mão do que dois voando, é melhor oitenta hoje, do que cem amanhã.
Se este procedimento se confirma, fica bastante claro que, independentemente da capacidade de os negociadores brasileiros obterem condições mais favoráveis para rolar o pagar a dívida, o próprio mercado financeiro internacional já aceita a redução real da dívida. Uma redução de fato. Donde a questão é apenas uma: continuará o Brasil pagando uma dívida de cem quando o próprio mercado financeiro
internacional reconhece que ela só vale oitenta?
Para que pagar mais, o que de fato vale menos?
A se confirmar esta tendência do mercado, todo o processo de negociação da dívida poderia ser revisto a favor do Brasil. Por motivo simples. A interpretação literal e formal dos contratos firmados significa hoje ser mais realista do que o rei. A negociação poderia perseguir apenas um objetivo: adaptar as obrigações brasileiras às condições reals do mercado internacional. O que por si só representaria importante benefício para a economia brasileira, sem precisar romper com as praxes que regem as relações internacionais.
No fundo deste deságio, está o reconhecimento internacional de que os critérios que hoje em dia regem a dívida externa brasileira inviabilizam seu pagamento integral. Os praços, os juros, a deterioração do preço de nossos produtos, as barreiras alfandegárias e a política econômica recessiva compõem um quadro tal, que melhor é exigir menos o ganhar algum, do que exigir muito o ganhar nenhum. Mais do que nunca as autoridades monetárias brasileiras necessitam adaptar a dívida contratual à possibilidade real de pagamento. Como o mercado já fez.
(Joaquim Falcão)
_Recife, 26/05/1985_