Recife e Olinda têm novo arcebispo: Dom José Cardoso Sobrinho. De Caruaru, com mais de vinte anos no Vaticano, trabalhando na Cúria Romana, estava recentemente, como bispo, em Paracatu, interior de Minas Gerais. O receio da comunidade católica pernambucana era que o substituto do Dom Helder fosse da linha conservadora. E descontinuasse o trabalho progressista realizado. Por isso mesmo, Dom José pediu que antes de qualquer julgamento, analisassem com “seriedade e objetividade” seu estilo de trabalho. Tem razão. Desde já, tem o crédito de confiança de todos.

Pode-se porém, identificar alguns desafios que terá inevitavelmente de enfrentar. O primeiro diz respeito à necessária adequação entre sua formação carmelita e sua experiência administrativa com as necessidades da Igreja pernambucana. Uma Igreja feita muito mais por leigos do que por padres e por freiras. Feita pelas comunidades eclesiais, pelas pastorais, e pela Comissão de Justiça e Paz, seu melhor exemplo. Igreja desburocratizada e voltada para fora dos claustros e das ordens. Uma Igreja que está nas ruas, nos mocambos, nas casas, nas comunidades, nos sindicatos, nas fábricas. Uma Igreja que faz a reflexão católica
na prática de seus fiéis e religiosos, muito mais do que na reflexão dos seminários, e da rotina institucional.

O segundo desafio diz respeito a sua posição diante da teologia da libertação. Não se pode desconhecer que Dom Hélder não foi, como não é, apenas um arcebispo. É um paradigma da ação pastoral e teológica. Optou decididamente pelos pobres e pela não violência. Teve ao seu lado a inestimável ajuda de Dom Lamartine, agora arcebispo de Maceió. A Teologia da Libertação está sendo no Vaticano. Mais não o está sendo no cotidiano católico de imensa maioria dos nordestinos. Qual a interpretação teórico e prática que Dom José dará aos preceitos da fé cristã, e à teologia da libertação, é desde já alvo da espectativa de todos. Suas primeiras declarações tranquilizaram, mais esclarecem ainda muito pouco. Mas como Dom José tem apenas 52 anos, terá muito tempo para consulstar o respeito e a admiração dos pernambucanos.

(Joaquim Falcão)

_09/05/1985_