“Políticos paulistas, mineiros e cariócas já nascem brasileiros. Nascem nacionais, desde o primeiro dia de mandato. Político gaúcho, então, nem se fala. Mas políticos piavienses, paraibanos e pernambucanos nascem apenas nordestinos. Nascem apenas regionais. E a maioria passa o resto da vida tentando ser nacional. Alguns poucos conseguem se livrar do paradoxo do político nordestino. O paradoxo de acreditar e defender o Nordeste como condição para ter peso político nacional. E só assim deixar de ser regional. Quando o conseguem, transformam-se em líderes nacionais.
Queiram ou não, o Nordeste acabou, quem diria, na Presidência da República. E isto ficou claro logo no discurso de Sarney, na madrugada de 22, televisionado para todo o Brasil, depois da morte de Tancredo Neves. Discurso onde cada palavra foi medida e cada compromisso foi pesado. Onde a própria ordem das frases revelou a prioridade das intenções. No discurso, Sarney mencionou claramente a intenção de combater os desníveis regionais. Menção que muitos consideraram inoportuna para o momento. Ocorre que o combate aos desníveis é a bandeira nordestina por excelência.
Não é por menos que se detecta aqui e ali,
entre paulistas e mineiros, certo receio de que o eixo do poder de agora em diante passe menos pelos palácios dos Bandeirantes e das Mangabeiras. Sobretudo se os políticos nordestinos se comportarem com o mesmo apetite que se comportavam Hélio Garcia e Franco Montorona divisão de cargos ministeriais.
Parece claro que a presidência Sarney não será conduzida pelo sentimento de culpa política pelo fato de ser nordestino, como gostariam muitos. Mas parece claro que mesmo decifrando o paradoxo do político nordestino, Sarney terá de enfrentar outro paradoxo; o dos desníveis regionais. Ou seja, quanto mais se tem combatido o desnível nordestino, mais ele tem aumentado. Por motivo simples. O combate tem sido errado. Tem privilegiado grupos politicamente conservadores, economicamente não competitivos e socialmente não representativos da maioria dos nordestinos. O compromisso com a mudança é também o compromisso com mudar os métodos e os objetivos deste combate.
(Joaquim Falcão)
_Recife, 02/05/1985_