Duas experiências de mobilização popular, com sucesso, cercam a trajetória política de Tancredo Neves. A primeira, mais longínqua, do governo Getúlio Vargas. Que não dispensava, aqui e acolá, uma campanha com povo nas ruas, ou, como na época, nos estádios de futebol. A segunda, mais recente, a campanha das diretas-já. Sem a qual, sua candidatura à Presidência não teria obtido a força convergente que obteve. Não é pois improvável que um dos desafios especiais de seu governo seja justamente equacional a perspectiva do povo nas ruas, da mobilização popular. Sobretudo se considerando que, se o futuro governo e seus aliados não conduzirem este processo, outras forças políticas irão conduzir. Ou, pelo menos, tentar conduzir.

Até agora, o presidente Tancredo Neves tem enfatizado necessidade de ampla campanha nacional em volta da Constituinte. Tem enfatizado a necessidade de mobilizar todos — trabalhadores, empresários, estudantes, donas de casa, professores etc… — em torno do debate sobre a nova Constituição. A questão que se coloca é se Constituinte mobiliza? Que ela é necessária, ninguém duvida. Que virá, tão pouco. O que se questiona é se ela tem o poder de tirar os trabalhadores das fábricas, os estudantes das universidades, os empresários das empresas, para discutir os artigos da

Constituição. Pesquisa realizada em 1982, no Recife, dizia claramente: cerca de 85% dos eleitores sequer sabia o que era uma Constituinte. Resultado semelhante foi encontrado em Salvador, Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Fortaleza, Campinas e Porto Alegre.

A Constituinte poderá mobilizar a imprensa, os intelectuais, os políticos e os partidos. Mas mobilizar a imensa maioria do eleitorado, que se caracteriza por um grau extremamente baixo de informação política — não lê política, não discute política, não é filiada a nenhum partido — são outros quinhentos. Além do insuficiente nível de informação, duas outras dificuldades cercam o eventual impacto mobilizador da Constituinte. Por um lado, trata-se de um problema de médio e longo prazo. E difícil para o povo perceber os resultados imediatos da Constituinte. Sobretudo se comparados com a luta contra a alta dos preços, o desemprego, a greve e pela eleição direta para prefeito. Por outro, há um componente técnico, muito difícil de ser redutível a slogans político-mobilizadores, sob pena de banalizar o necessário debate.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 05/02/1985_