Sempre que perguntado por que não anuncia logo os nomes que vão integrar seu Ministério, o presidente Tancredo Neves repetidamente afirma que politicamente não é conveniente. E acrescenta: “Por motivos táticos e estratégicos.” Tem razão. O problema é decifrar o que querem dizer estas duas palavras, tão justificadoras quanto misteriosas: tática e estratégia. Uma das razões táticas, quase óbvia, é o fato do que o Ministério pode ser escolhido até o dia 15 de março. Enquanto que as Mesas do Senado e da Câmara têm de ser escolhidas até o dia primeiro de março. Sendo que o procedimento formal, com escolha das lideranças parlamentares inclusive, inicia-se ainda no mês de fevereiro. Ou seja, antes de escolher o Ministério, as Mesas terão que ser negociadas e escolhidas.
Existem duas outras razões, além desta cronológica. A primeira vinculas-se ao fato de que a participação dos políticos no Ministério deverá ser expressiva. E muitos senadores e deputados estão sendo considerados para o Ministério e para as Mesas e lideranças. O exemplo mais óbvio é Marco Maciel e Jorge Bornhausen. A segunda decorre do fato de que, com tantos ministeriáveis para tão
poucas vagas, é provável que a escolha traga, ao mesmo tempo, euforia e descontentamento. O importante então é evitar que os eventuais e inevitáveis descontentamentos interfiram logo no Congresso através da composição em torno de seus futuros líderes. Um relacionamento cordial e negocial com o Congresso é indispensável para este início de governo.
Neste sentido, em relação ao Brasil em geral, e ao Nordeste e Pernambuco em particular, a equação final do Ministério não pode ser armada agora. É um quebra-cabeças lento e gradual. Muita água vai rolar. A participação do Nordeste vai depender, por exemplo, da participação ou não de Marco Maciel e Fernando Lyra em cargos de destaque na futura legislatura. Só a partir daí é que a equação nordestina, com Gonzaga Mota, Marcos Freire, Antônio Carlos e outros poderá ser ministerialmente solucionada.
(Joaquim Falcão)
_Recife, 31/01/1985_