Prevaleceu o bom senso. O prefeito do Recife, Joaquim Francisco, pediu que a Câmara dos Vereadores devolvesse projeto-de-lei que enviara. Projeto solicitando autorização para vender uma das maiores, e mais bem localizadas, áreas do patrimônio municipal. Um grupo empresarial ia transformá-la em “shopping center”. A proposta da Prefeitura era, no mínimo, polêmica.
Começando pelo fato de ser encaminhada à Câmara, em regime de urgência, na convocação especial, durante o recesso parlamentar, fica difícil justificar que o Recife tem urgência em construir um “shopping center”. Mais ainda. Ao contrário do que se anunciara antes, a venda não viria trazer novos recursos financeiros para o caixa da Prefeitura. Posto que o preço poderia ser pago em ações preferenciais, sem direito a voto, ainda que com a participação integral nos resultados. Fica difícil justificar por que a Prefeitura quer assumir o risco quando todo mundo sabe que risco empresarial é inerente à atividade privada. E não à atividade pública. A não ser em situações muito especiais. O que parece não ser o caso. Fica difícil justificar uma privatização privilegiada dos recursos públicos, numa venda, para a qual, segundo alguns vereadores, inexistirá lícitação pública. Não se trata evidentemente de ser contra
que a Prefeitura incentive a iniciativa privada. Nada disto. Trata-se da ordem de prioridades. Fica difícil justificar grande grupo empresarial para construir “shopping center” numa cidade cuja característica básica, até histórica, é a do mascate. Do pequeno e médio comerciante.
O prefeito justifica a retirada do projeto para atender a solicitação de inúmeras entidades representativas da sociedade civil interessadas em encontrar melhor destinação para a área. Tem razão. E preciso encontrar melhor destinação. Que não seja sob o eterno argumento de criar novos empregos, muito menos de preservar a área para o lazer da vizinhança. Como bem salientou Jayme Gusmão, presidente do Conselho Regional de Engenharia e de Arquitetos, é preciso repensar o desenvolvimento urbano do Recife. O problema do “shopping” aponta para esta necessidade básica. O Recife, que já era inchado, como alertava Gilberto Freyre, nestes anos se desenvolveu errado. Ou pelo menos insuficiente e desigualmente para as necessidades da maioria dos seus cidadãos.
(Joaquim Falcão)
_29/01/1985_