Diz o ditado: “Estar certo antes do tempo, é errado.” Traduzindo para a cena política brasileira hoje: o político que defende idéias e projetos antes do tempo, dificilmente chega ao poder. Ou melhor, para se chegar ao poder não bastam boas idéias, bons projetos, ou bom estilo de fazer política. Não basta “estar certo”. E preciso mais. É preciso lutar e encontrar o tempo certo. Fazer a hora, como dizia o poeta. Fazer o tempo, no qual as forças políticas do País passam a necessitar de suas idéias e projetos. De seu estilo de exercer o poder e fazer política. E ao necessitar das idéias e do estilo, necessitam, dele também, do político. E o colocam no poder. Tancredo Neves é eleito hoje, presidente do Brasil, não só porque defende a democracia, a soberania nacional, e uma economia mais distributivista. Muitos outros líderes defenderam também. Uns com mais, outros com menos, veemência. Tancredo Neves é eleito porque defendeu estas idéias com estilo certo, no momento certo. A tal ponto que Tancredo se transformou em necessidade nacional. O que é o maior elogio que as forças políticas podem fazer a um líder. E o momento em que a política se aproxima da arte.

No regime autoritário, não basta que os políticos de oposição defendam a democratização. É preciso mais. É preciso que a democratização passe a ser necessidade imediata de parcelas crescentes da sociedade. Do contrário, o político de oposição será o líder messiânico. Detentor da idéia certa, mas provavelmente não
chegará ao poder. Inversamente, o político do governo que usa do poder para impor o projeto errado (aquele que encontra crescente oposição das forças políticas), dificilmente se manterá no poder. Mais cedo ou mais tarde chegará o tempo em que a sociedade precisará do projeto certo. Da democracia. Donde, das duas, uma. Ou o político do governo se transfigura. Abandona seu projeto. Veste outra camisa. Ou a sociedade muda o poder.

Tancredo Neves é eleito porque o regime de 64 insistiu em projeto considerado errado por parcelas crescentes da sociedade. Pelos trabalhadores sem salário condigno e depois sem emprego. Pelas classes médias, com a cidade violenta e a renda achatada. E pelos empresários também, esmagados entre juros e estatização. Estas insatisfações tão diferentes, e concorrentes, encontraram-se e ficaram de acordo na campanha das diretas-já. Diz outro ditado que “só negocia, quem tem a capacidade de confrontar”. A campanha das diretas-já evidenciou a capacidade da sociedade em confrontar os donos do poder do Estado: o regime de 64. A tradição política brasileira, sempre diante da iminência do confronto, optou pela negociação. Tancredo Neves soube captar este momento. Personificando-o.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 15/01/1985_