Além de começar a atender seus compromissos com os brasileiros, Tancredo Neves, ao propor eleições diretas para as prefeíu-ras das capitais em 1985, poderá atingir pelo menos três objetivos importantes. O primeiro, e mais óbvio, será neutralizar a campanha pró-diretas já para presidente da República a ser desencadeada em março pelo PDT e pelo PT. Segundo, será avaliar a força eleitoral não só dos partidos que integram a Aliança Democrática, mas sobretudo dos adversários: Brizola no Rio e Lula em São Paulo. Uma vitória da Aliança no Rio de Janeiro, por exemplo, reverteria, provavelmente, toda a reformulação partidária prevista para esta etapa da transição. Finalmente, o terceiro será ampliar a margem de manobra e de negociação do futuro governo federal em relação ao Nordeste.
A verdade é que, momentaneamente ou não, o PMDB por aqui anda desaparecido. Os governadores do PDS são o Nordeste. O controle da Sudene, o apoio dado à candidatura Tancredo neves e a união em torno do partido da Frente Liberal, tudo mantém o Nordeste como o país do PDS-PFL. O que reduz consideravelmente as alternativas locais do futuro governo federal. As eleições para as prefeitiuras darão ao PMDB a possibilidade de demonstrar força eleitoral
em redutos tradicionalmente oposicionistas, como são os grandes centros urbanos Aliás, não foi por menos que as eleições nas capitais foram proibidas nesses anos todos. Neste sentido, a restauração do equilíbrio das forças políticas no Nordeste parece ser condição indispensável para aumentar as alternativas do futuro governo federal na região.
Para o PMDB Nordeste, estas eleições representam a sobrevivência. Posto que, no próximo ano, este mesmo PMDB será um partido imprensado. Entre, por um lado, o PT e PDT, que há muito esperam chance de crescer no Nordeste. Provavelmente capitalizarão a insatisfação natural que surgirá com o governo Tancredo Neves E, por outro, a máquina estadual controlada pelo PDS. Se assim for, um PMDB sem poder de confronto chegará às eleições para os governos estaduais em 1986 com chances bastante reduzidas. Chances reduzidas, quer para apresentar candidatos próprios, quer mesmo para sentar na mesa das negociações da Aliança Democrática em busca de candidaturas, tancredamente, de consenso.
(Joaquim Falcão)
_25/12/1984_