Ha mais de quatrocentos anos, o Brasil desconhece o Brasil. Ainda agora, Roberto Burle Marx e Jose Tabacow percorreram mais de 11 000 quilômetros durante três meses, na Amazonia, tentando descobrir a fauna escondida brasileira. Conseguiram. Voltaram ao Rio de Janeiro com mais de 300 novas espécies de plantas até então desconhecidas, ou não utilizadas, pelo Brasil “civilizado”. Fizeram, com apoio do (NPq, uma expedição científica de descobrimento. Descobriram um novo Brasil. E ao mesmo tempo, o acelerado processo de devastação que este Brasil, mesmo desconhecido, sofre
Em vez de identificar, catalogar, utilizar e preservar sua imensa e única riqueza botânica, o Brasil a destrói. Silenciosamente. O relato dos dois pesquசadores é impressionante. Em um só dia, encontraram nas estradas 98 carretas carregadas de imensos troncos de árvores centenarias, mortas. A macabra procissão da devastação nacional. Uma procissão legal e incentivada. Para efeito de imposto, por exemplo, o Inera considera desmatamento como benfeitoria. Donde, desmatam, não pagam impostos, não cultivam e não preservam a terra violentada. Pela legislação florestal, outro
exemplo, o proprietário pode desmatar 50% de sua propriedade. Desmatam. E vendem os restantes 50%. O novo proprietário, por sua vez, desmata e vende os restantes 25%. O novo proprietário… etc. etc. As estradas, com inclinações excessivas e com suas laterais marcadas pelo fogo e troncos queimados e fumegantes ainda, contribuem também para uma Amazônia como imagem do caos.
Não se trata, é óbvio, de defender uma política preservacionista ingênua e idealista. Trata-se apenas de reconhecer que está na hora do governo federal, e dos empresários nacionais também, levarem a sério uma ocupação não destrutiva da Amazônia. Trata-se de ter uma legislação fiscal e uma engenharia rodoviária não pautadas apenas pela ambição antinacional do capitalismo selvagem. Mas ao contrário, controladas pelos padrões científicos de preservação ecológica, que não são necessariamente contrários à utilização econômica da Amazônia.
(Joaquim Falcão)
_04/12/1984_