Tudo na vida tem limites, diz o ditador popular. Com exceções, é claro. Por exemplo, a capacidade da candidatura de Tancredo Neves provocar adesões parece ilimitada. Já se anuncia para breve, a adesão do PTB. Em Pernambuco, deputados federais malufistas informam que se desligarão de Paulo Maluf a 15 de janeiro. Se Maluf chegar até lá, é claro. Inauguraram assim a figura do malufismo “pró-tempore”. O PDS da Câmara dos Vereadores do Recife, ex-reduto do malufismo, desembarcou no Palácio das Princesas, à frente o vereador Rivaldo Alain (PDS-PÉ). Para hipotecar ampla, geral e irrestrita solidariedade a Roberto Malgalhães em sua pregação antimalufista, este surto de adesismo incontrolável parece assustar a própria Aliança Democrática. Seus líderes estão agora preocupados em fortalecer não mais o futuro governo, mas justamente a futura oposição através de Delfim Neto e do PTB.

E evidente que os pés no chão, a capacidade de captar o espírito do cidadão brasileiro, e a moderação de Tancredo neves estimulam inevitavelmente este surto de adesões. Mas é evidente que fatores mais objetivos estimulam também.

*Por exemplo: a estatização da vida brasileira, sobretudo da vida política brasileira, agravada
pela hipertrofia do Poder Executivo nestes últimos vinte anos. Hoje, o uso da máquina estatal, dos recursos públicos é indispensável para a sobrevivência de grande número de políticos “oficiais”. Para estes, não se faz política sem empreguismo, sem subsídios, sem crédito oficial, sem a proximidade do governo. Fora do governo, não há salvação, oumelhor, não há votos. No Nordeste, a fragilidade econômica da imensa maioria dos cidadãos transforma a todos em dependentes potenciais do governo. De qualquer governo.

Diante deste adesismo incontrolável, alguns tancredistas de primeira água acham que chegou a hora de colocar na porta de entrada o aviso de “lotação esgotada”. Pode ser que sim, pode ser que não, o importante porém, é reconhecer que é preciso cortar esta dependência excessiva dos políticos e dos cidadãos do Poder Executivo. A alternância democrática do poder favoravelmente amenizará a dependência dos políticos. E uma distribuição mais equânime da renda nacional e emprego para todos amenizarão o dependência dos cidadãos.

Joa quim Falcão

[ASSINATURA NÃO DETECTADA]

_Recife, 02/12/1984_