Está em fase de implementação um conselho que deverá assessorar, na área econômica, e nesta fase de transição, o candidato Tancredo Neves. O conselho reunirá lideranças econômicas que representem as múltiplas forças políticas que integram a Aliança Democrática. Não se sabe ainda o formato, as funções específicas e o modo de operar deste conselho. Mas, sabe-se desde já, que uma das tarefas principais será traduzir para a área econômica o consenso que Tancredo Neves alinhavou na área política. Tarefa difícil, mas não impossível.
Um programa econômico de consenso nacional só pode ser formulado por lideranças que expressem uma boa parcela deste consenso. Daí o critério para escolha dos primeiros nomes. Em princípio, cogita-se de Hélio Beltrão e Karlos Rischbieter pela Frente Liberal, e José Serra, Celso Furtado e Luciano Coutinho pelas oposições. Beltrão, além de líder empresarial, captou boa parcela do consenso nacional no Ministério da Desburocratização. Rischbieter, por suas previsões antidelfinianas absolutamente confirmadas e por sua sensibilidade aos condicionantes sociais e culturais da política econômica, tem conseguido crescente livre trânsito entre todas as forças políticas que apoiam Tancredo Neves. Serra e Coutinho são
duas lideranças com influência em boa parte da produção nacional: São Paulo. E Furtado tem a credibilidade nacional e internacional a seu favor. Já o nome do ministro Mário Simonsen tem encontrado resistências, menos por sua inegável competência, e mais por representar segmentos e leorias econômicas muito específicos.
A ser mesmo implementado este conselho, coincidência ou não, Tancredo Neves estará revigorando a estratégia de Getúlio Vargas, quando, ainda na década de quarenta, colocou as duas grandes lideranças econômicas da época — Eugênio Gudin e Roberto Simonsen — em dois conselhos econômicos que lhe prestavam assessoria. Naquela época, as divergências entre Simonsen e Gudin levaram Getúlio a criar não um, mas dois conselhos. Agora, pelo menos por enquanto, Tancredo Neves faz o esforço inicial, e aposta fortemente no diálogo e na negociação entre economistas de tendências distintas e representando interesses político-econômicos distintos também. Vale a pena tentar.
(Joaquim Falcão)
_29/11/1984_