Pouco a pouco vão surgindo os novos líderes da nova República, que otimisticamente se delineia no Pais redemocratizado. Fernando Henrique pelas oposições e Marco Maciel pela Frente Liberal são dois destes novos líderes. Daqui para frente, acompanhar seus desempenhos políticos é importante, posto que política se faz, também, a partir de projetos pessoais. E o projeto pessoal de cada um parece os situar no círculo numeroso dos que gostariam de ser presidente da República e no círculo restrito dos que efetivamente podem cunhar a possibilidade de vir a ser. Marco Maciel deixou clara a pretensão ao se candidatar a sucessor de Fíguiredo. Fernando Henrique deixa claro ao se candidatar ao governo de São Paulo, o maior colégio eleitoral do País em eleições diretas.
Ambos partilham do privilégio comum: são extremamente jovens. Podem ser candidatos em pelo menos três sucessões presidenciais, antes de se aproximarem da idade de Tancredo Neves. Partilham também do desafio comum: em eleições diretas, o controle das máquinas partidárias de São Paulo, Rio, Minas e Rio Grande do Sul é vital para qualquer candidatura presidencial. Daí por que terão que desenhar estratégias a partir desta realidade quantitativa. A estratégia de Maciel é porém razoavelmente distinta da de Fernando Henrique.
• Hoje, Maciel tem dois problemas principais. O primeiro é se desvincular do passado, desvincular-se do regime de 64, desvinculação já iniciada
com a vitória nas urnas de Pernambuco em 1982. Reforçada com sua atuação na Frente Liberal, rompendo hesitações, costurando alianças e assumindo o risco de confrontação com o Planalto. O segundo é se desregionalizar: dificilmente o Súl e o Centro-súl do País, detendo a maioria dos votos, escolher a um “estrangeiro” (um nordestino) a candidato à Presidência da República. Marco Maciel tem que ter bases políticas no empresariado, nas classes médias, nos trabalhadores e nas máquinas partidárias sulistas. A desregionalização de Maciel está sendo facilitada pelo contraste com a pregação regionalista de Roberto Magalhães.
Já Fernando Henrique iniciou-se na política por um desempenho nacional; através do Senado e da participação nas decisões nacionais do PMDB. Daí porque agora busca consolidar bases regionais. Se conseguir, mata dois coelhos com uma cajadada: controlará a máquina do partido e terá a oportunidade de mostrar ao empresariado e às forças militares mais conservadoras, que um governo de esquerda, como aliás na maioria dos países europeus, não é o holocausto pregado pelo anticomunismo ortodoxo. Ao contrário, pode até ser saudável para a estabilidade democrática e para o Brasil.
(Joaquim Falcão)
_18/11/1984_