Poucos dias antes das eleições norte-americanas, a Rede Globo fez um acordo com a Rede NBC de televisão norte-americana para cobertura ao vivo das eleições. De lá e de cá. Não somente a Globo cobriria, como cobriu, as eleições norte-americanas, mas o inverso também. A NBC cobrirá para todos os Estados Unidos a votação no Colégio Eleitoral a 25 de janeiro em Brasília. O que se por um lado explicita a preocupação norte-americana com a normalização democrática deste grande devedor — o Brasil —, por outro é um acordo com consequências políticas importantes para nosso próprio processo eleitoral.

Dentre as características que distinguem autoritarismo de democracia, o acesso do cidadão à informação política relevante é uma delas. O autoritarismo constrói seu poder com base no segredo e na surpresa que cerca os atos do governo. Já a democracia não existe sem a publicidade e previsibilidade dos atos políticos. Quando a eleição indireta se estrutura em cima do segredo e da surpresa, ela é menos democrática do que a eleição direta. Pois esta se faz sobretudo nos comícios, na televisão, no rádio e na imprensa. Aquela se fecha nos corredores, nas conversas em surdina e nas alianças não reveladas. Por tudo isto, a tentativa do grupo Maluf, e eventualmente do Planalto, de
querer alterar as regras do jogo, mudando-as (ou, mais sutilmente, reinterpretando-as), atingirá de agora em diante não mais somente o eleitor brasileiro silenciado. Atingirá a credibilidade do próprio governo diante do mundo. Ao vivo, via Embratel.

A democratização brasileira está sendo duramente construída pelos políticos, pela sociedade civil, por segmentos dos escalões burocráticos e militares, pelas multidões nos comícios. E também pela televisão, pelo rádio e pela imprensa. Na história dos meios de comunicação no Brasil, a democrização atual significa um novo patamar alcançado. Posto que grande parte da imprensa, rádio e televisão já reconhece que seu dever maior não é ser contra ou a favor do governo ou das oposições. Seu dever maior é informar. E além de informar é explicar. E além de informar e explicar é permitir que o cidadão julgue por si próprio. O mais autonomamente possível. Não é por menos que este dever maior, para ser cumprido, exige o combate ao segredo e à surpresa como fundamentos do regime autoritário.

(Joaquim Falcão)

_13/11/1984_