As seis horas da manhã do dia da escolha dos delegados da Assembléia Estadual do Maranhão ao Colégio Eleitoral, o governador Luiz Rocha encontrou-se com o ministro Danilo Venturini no hotel em que o ministro estava hospedado. O ministro explicou sua presença como decorrente de ordem do Presidente, lendo em vista a informação que este recebera de que a Polícia Militar do Estado estaria cercando as casas dos deputados pró-Maluf. Haveria uma tentativa de cercear o direito de votar desses deputados. O governador prontamente negou o fato.

O grave nesse desencontro, entre o que o ministro alegou e o que o governador afirmou, é a constatação de que não existe mais comunicação pessoal entre o Presidente e os governadores. Aliás, hoje mesmo, o Presidente deverá estar recebendo, se já não recebeu, comunicação por carta do governador Suruagy, de Alagoas, de seu apoio a Tancredo Neves. Na medida em que não existe comunicação direta, o resultado é óbvio; prevalecem os intermediários. O risco de desencontro, de boa ou má fé, aumenta.

Mal comparando; entre o presidente norte-americano e o secretário-geral soviético existe um telefone para a comunicação pessoal. Justamente para evitar que decisões políticas graves sejam tomadas com base em informações desconectadas. Em momento grave para a

Federação, onde se decide a intervenção num Estado, seria de esperar que a Presidência procurasse confirmar pessoalmente as informações, para que as decisões sejam tomadas com base em fatos confirmados. Quando questionada sobre se teria capacidade de ser presidente dos Estados Unidos pelo fato de ser mulher, Geraldine Ferraro não hesitou em afirmar que sim. E justificou. Disse que o exercício do poder político exige a capacidade de tomar decisões com bases em fatos reais. Esta capacidade ela tinha,

O que se constata hoje é um progressivo isolamento da Presidência. Ou melhor, uma progressiva seletividade das pessoas que podem ter ou não acesso à Presidência. Os governadores de quase todos os Estados, o vice-presidente da República, as lideranças empresariais mais expressivas, os líderes sindicais dos trabalhadores mais independentes não podem. Nem toda oposição, a quase totalidade de intelectuais professores e estudantes brasileiros etc… E difícil governar um país com base apenas em informes. A Nação quer reencontrar o Presidente. Sem intermediários.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 30/10/1984_