Se não é estranho, é pelo menos inusitado o período político que vive hoje Pernambuco. E grande parte do Brasil também. Na medida em que todas as lideranças político-partidárias, ou quase todas, apóiam a candidatura de Tancredo Neves, passamos a ter a sensação nítida que Pernambuco é um Estado de partido único. A natural competição entre governo e oposições se dilui diante da aliança nacional em torno de Tancredo Neves. Os partidos estão com suas identidades momentaneamente suspensas, tão setorializadas e desarticuladas são as críticas das oposições ao governo Magalhães, tão receptivos, cordiais e “de esquerda” são as atitudes e projetos governamentais diante de seus críticos. É um período de calmaria.

Trata-se evidentemente de intervalo. Entretanto, nem por isso questões importantes deixam de ser colocadas. Por exemplo: até onde podem os líderes partidários irem? Quer dizer, até onde podem fazer alianças e assumir compromisso com seus opositores de ontem? Até onde podem caminhar Maciel e Magalhães, e vice-versa, Arraes, Freire e Jarbas, sem perderem b apoio das bases eleitorais que os elegeram? Não é segredo para ninguém as pressões e cobranças que setores mais conservadores da sociedade pernambucana, de tendências malufistas, exercem diariamente sobre Magalhães e Maciel. Como também não é segredo para ninguém que para as opositores, a
momentânea calmaria ao desarmar espíritos, desmobiliza partidários e custa votos.

Por estas e outras, sempre que se fala em reformulação partidária em Pernambuco, Sileno Ribeiro, secretário do Governo, da Aliança Democrática, faz duas observações principais. A primeira é que antes de novos partidos, importa é reforçar os núcleos liberais de cada um dos diferentes partidos existentes. Quer dizer, reforçar os núcleos não-radicais. O pressuposto é que a transição democrática passa pelo entendimento articulado entre os partidos através destes núcleos não-radicais. A segunda é que mesmo diante de eventual reformulação partidária, o político não poderá esquecer suas sustentações eleitorais. Ainda que ideológica e partidariamente o político possa ir e vir, eleitoralmente este ir e vir é sempre muito arriscado.

A essência da democracia é a competição. A calmaria de hoje é pois passageira. É reflexo estadual da Aliança Democrática. Importa porém é constatar que mesmo passageira, a calmaria traz consequências políticas. Que permitem o avanço de uns e a neutralização de outros.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 09/10/1984_