O BNH e os mutuários estão negociando, mas divergindo fortemente. No começo da semana, cerca de 1.000 mutuários reuniram-se no Centro de Convenções de Pernambuco, em Olinda, para ouvir do presidente da “Causa Comum” e membro da Comissão Nacional de Mutuários, João Batista Braga, a nova proposta de equivalência salarial apresentada pelo BNH. A recusa foi unânime. Os mutuários não querem modificar seus contratos. Querem cumpri-los. A recusa não foi só pernambucana. Foi nacional. Associações de outros dezoito Estados também recusaram. As negociações estão no impasse. Nélson da Matta afirmou que lavava as mãos.

Ninguém pode desconhecer os esforços intensos da presidência do BNH para, se não reformular o SFH, pelo menos adiar a crise do setor até que o salário da classe média volte a subir outra vez. A crise porém não é conjuntural. Para os mutuários, o bônus, por exemplo, pode até vir, mas pouco adiantará. O que está em jogo é a continuidade reformulada ou a interrupção das atividades do próprio SFH. E começa pela crise de credibilidade do BNH. Dizia um dos mutuários ao recusar a proposta do Banco: “Se o BNH não cumpre o contrato,
por que irá cumprir um trato?” O achatamento do salário do mutuário o deixa sem saída: “Se perdermos na Justiça, deixamos de pagar até o que hoje pagamos.” E se não pagarem mais, o índice de inadimplência poderá subir para acima de 30%, desestruturando a todos: mutuários, agentes financeiros, BNH e Judiciário.

Os esforços de Nélson da Matta caminham na direção certa quando, por exemplo, admite a participação dos mutuários no Conselho do Banco e na Comissão de Política Habitacional. Mas é preciso que tenha o apoio dos agentes financeiros. Outro mutuário apontava que dois dias depois de Da Matta ter prometido esforços para sustar as execuções, os agentes financeiros publicavam nos jornais longas listas de mutuários em execução. A negociação e acordo seriam hoje de interesse de todos. A começar pela própria indústria da construção civil. Pois só a partir deste acordo a classe média terá coragem de voltar a comprar os milhares de imóveis hoje encalhados.

(Joaquim Falcão)

_13/09/1984_