A primeira vista, o julgamento de Leonardo Boff e o documento Ratzinger com aprovação de João Paulo 2º significariam, da parte do Vaticano, uma clara e nítida condenação da Igreja da América Latina. O que inclusive repercutiria, a médio prazo, no trabalho de bispos mais progressistas do Nordeste, como dom Hélder Câmara. Basta, porém, um mínimo de atenção para constatarmos que o problema real que preocupa o Vaticano é muito mais amplo do que as eventuais discordâncias, ou contenção de limites, com a Teologia da Libertação.

O antropólogo, professor Gilberto Velho, coloca a questão muito claramente: “A principal preocupação do Vaticano é com a identidade da Igreja. Sua identidade está fundamentada no domínio do sagrado. Isto é, na definição das relações dos homens com o sobrenature), com o divino.” Neste sentido, o Vaticano estaria buscando justamente reforçar muito mais as relações entre homem e Deus. O que, em algumas das diversas teologias da libertação estaria sendo momentaneamente obscurecido, pois o que distingue a Igreja de um partido político de um governo não é sua posição quanto a problemas sócio-econômicos. Mas justamente a relação entre sua posição quanto a problemas sócio-econômicos e o reino do divino, do sagrado.

Na verdade, na América Latina, e no Nordeste, a Igreja vinha perdendo sua identidade há muito tempo, por causa de sua vinculação com as elites egoístas. Não faz muito tempo, acreditar no sagrado exigia do católico acreditar no governo e aderir aos desígnios terrestres da elite egoísta. Quem não acreditasse e não aderisse era um mau católico. Neste contexto, algumas teologias da libertação fizeram caminho inverso. Em nome da defesa do sagrado, era-se obrigado a aderir à libertação imediata dos oprimidos. Esgotava-se o sagrado na libertação apenas terrena e conjuntural. É esta redução do sagrado à libertação apenas terrena que preocupou o Vaticano.

“A dificuldade, lembra Gilberto Velho, é definir uma teologia e uma ação fundamental da Igreja que, sem abrir mão do sagrado, sejam a favor dos direitos humanos fundamentais”, Ora, o que caracteriza a ação evangélica de dom Hélder (e de vários outros líderes da Igreja progressista) é justamente sua capacidade de ser carismático e messiânico, voltado sempre para o reino divino, e ao mesmo tempo, solidário com a liberação terrena de seus fiéis.

(Joaquim Falcão)

_04/09/1984_