A corrida da sucessão para Tancredo Neves não é de 800 metros com barreiras. Mas certamente é de quatro meses com obstáculos. Obstáculos das mais variadas origens e com as mais camufladas roupagens. Diante dos quais Tancredo e seus correligionários terão de manter sangue frio. Os obstáculos visam basicamente a dividir as oposições, estimulando as diferenças e disputas internas. E visam também a jogar a Aliança Democrática contra o Presidente e contra os militares. Ou seja, ou recuperar votos do PDS, hoje com Tancredo, ou criar um clima de impasse institucional que força um retrocesso político. Pois se tudo continuar como previsto, a vitória no Colégio Eleitoralé praticamente irreversível.

Nesta semana, pelo menos três tipos de obstáculos apareceram. O obstáculo mais nítido foi a tentativa de radicalizar a campanha: de qualificar a candidatura de Tancredo como candidatura das esquerdas e contra os militares. Este clima foi estimulado pelo diálogo entre Válter Pires e Aureliano Chaves. E conta com a contribuição da intensificação do boato — se Tancredo ganhar o Brasil vira Argentina. O obstáculo mais difícil é a tentativa de forçar Tancredo Neves a especificar posições que
possam atritar os diferentes interesses agrupados dentro da Aliança Democrática. É a tentativa de jogar empresários contra líderes sindicais. O Nordeste contra o Sul etc.

O mais insidioso porém é a tentativa de manter a reforma institucional como uma questão permanentemente em aberto. Como um problema não resolvido, mas em vias de solução. Ao acenar com parlamentarismo, e mesmo diretas já, o PDS e o Planalto não pretendem sinceramente nem um nem outro. Pretendem apenas acirrar as pretensões presidenciais de Brizola contra Tancredo. Estimular Ulisses e o Só Diretas. E sobretudo mobilizar o PMDB, não para a campanha real, no Colégio, mas para uma campanha ideal, em torno de projetos de lei que nunca acabam.

Vencer estés obstáculos exige de Tancredo Neves evitar toda a radicalização, manter o diálogo permanente com todos, militares inclusive, e avaliar com realismo se existe ou não, de fato, a possibilidade de diretas-já.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 02/09/1984_