Pouco à pouco o Nordeste faz o balanço de seis anões de seca. Balanço trágico. Uma seca que atingiu nove Estados, 1.126 municípios e matou 3,5 milhões de cidadãos brasileiros. Ou seja, cerca de 10% da população do Nordeste! E o mais grave: 60% das crianças nascidas durante a séca. estão com o futuro comprometido pela anemia e pela desnutrição. Qualquer leitor, cidadão brasileiro também, não pode deixar de se alarmar com estes números. Muito menos qualquer governo responsável. E, no entanto…
F, no entanto, como alerta o professor André Aguelle, da Universidade Federal do Ceará: “É mais difícil lidar com uma região semi-árida, do que um deserto. Pois, ao contrário do deserto, no semi-árido existe sempre a ilusão da água. Que vem rara e insuficientemente, mas vem.” Quê! dizê, pior do que a falta d’água, é o poder desmoralizador e ilusório da água efêmera. O governo, por exemplo, e a sociedade em geral estão agora no perigoso e irresponsável período da desmobilição diante da seca.
Não se desmobilizaram, porém, as universidades nordestinas, que com o apoio da Rede Glóbo, à frente Cléo Niceas e o professor Aguelte saíram em busca de soluções. Durante 50…dias, uma caravana de professores e jornalistas percorreu cerca de 7.700 quilômetros e ou viu mais de 6 mil pessoas: prefeitos, lavradores, políticos, pequenos e grandes proprietários, técnicos, religiosos, todo o mundo. Trata-se de esforço relevante. Primeiro porque, apolados pela universidade e pelos melos de
comunicação, as instituições e as pessoas se sentem mais confiantes. Mais fortes para propor, executar e vencer. Valoriza-se quem está em contato com a realidade. É o processo inverso do mau burocrata. Em vez de dizer, ouvir. Em vez de estar cá, estar lá. Em vez de ensinar, aprender. Em vez de imaginar, ver. Em vez de se enganar, constatar. A partir daí as soluções são necessariamente mais simples, mais baratas, mais realistas e mais democráticas.
Segundo, porque se permite que as soluções sejam tratadas mais objetivamente. Sem as tradicionais acusações recíprocas. É tempo de se deixar de suspeitar de qualquer iniciativa e de qualquer solução.
Pode-se proibir o uso de agrotóxicos, banidos nos seus países de origem, implementar uma pecuária com animais nativos, utilizar os melos de comunicação para esclarecimento das comunidades, promover a reforma agrária, redistribuir os benefícios decorrentes das obras públicas, substituir o milho apropriado a regiões úmidas pelo milheto de sorgo, mais resistente ao semi-árido, mobilizar os trabalhadores para fiscalizar a execução dos planos oficiais sem que se esteja sendo necessariamente o subversivo, o espoliador.
(Joaquim Falcão)
_Recife, 23/08/1984_