A candidatura Tancredo Neves está apoiada em dois partidos: o PMDB e o PLP. Tancredo Neves, presidente, governará também com dois partidos: os mesmos PMDB e PLP, pelo menos. A partir daí, as comparações históricas são inevitáveis. Getúlio Vargas governou também com dois partidos: o PSD e o PTB. Tudo indica que o PMDB, a médio prazo, cumprirá o mesmo destino eleitoral do PTB. Será o partido que, como foi o PTB progressivamente, canalizará o vinto dos trabalhadores e das classes médias dos grandes centros urbanos. Se não um partido manipulista, como então, pelo menos um partido das grandes massas urbanas, como já é aliás, este partido do dr. Ulysses (provável ministro da Justiça do governo Tancredo Neves).

De resto, Tancredo Neves, presidente, necessitará de um forte partido, digamos, à esquerda. Capaz de compelir, com vantagem, com o partido de Leonel Brizola ou o partido de Lula. Precisará de um PMDB capaz de mobilizar, e sobretudo representar, o voto popular dos grandes centros urbanos. Engana-se pois quem pensar que o PMDB deverá tender ao centro. Pode até vir a tender. Mas melhor, mesmo, para Tancredo Neves é que ele venha a disputar Tôm-o PT, o PDT e as esquerdas organizadas, o eleitorado urbano mais progressista do Pais. O que necessariamente não destina o PMDB n um
neopopulismo. Mas, provavelmente, o aproxima
dos partidos como os socialismos democráticos
de Portugal, Espanha, França etc.

Na medida, porém, em que o PLP tem seus líderes — Aureliano Chaves e Marco Maciel — oriundos do UDN e do PSD, respectivamente, este novo partido pode seguir cursos diferentes. Se enfatizar compromisso com o ideal liberal, o PLP será como a UDN, o partido ético tão próximo quanto sempre longe do poder. Se, ao contrário, enfatizar o realismo pragmático, será partido como o PSD, sempre no poder e que ressurge comandado não por um mineiro mas por um pernambucano: Marco Maciel. Não é por menos que os governadores do PDS do Nordeste, progressivamente, depois do espasmo andreazzista, acorrem a Tancredo, via PLP. Pois o PSD é antes de tudo o partido do governo e o partido mais agrário. Ou seja, o partido que canalizará os eleitores nordestinos desiludidos com o atual PDS dilacerado. De resto, como alerta um pedessista clássico da Zona da Mata de Pernambuco, “o PLP não será nunca uma UDN, pois a UDN foi um partido fatal”.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 19/08/1984_