Apesar do esforço de Mário Andreazza em vir comandar a reunião da Sudene, nada aconteceu nesta semana em Pernambuco que não fosse Tancredo Neves. Por um motivo simples. Em Pernambuco, Tancredo Neves é, ao mesmo tempo, governo e oposição. Tanto é Roberto Magalhães quanto Marcos Freire. Ou melhor, além de PDS e PMDB, Tancredo é também o PP que já existiu mas que existe ainda, de Cid Sampaio e Sérgio Guerra.

Ora, este desprezo pelas diferenças e identidades partidárias não é, de modo algum, uma circunstância pernambucana de Tancredo Neves, é algo muito mais amplo. E algo muito mais amplamente revelador de sua concepção sobre a vida política brasileira. Onde os partidos políticos, enquanto formas institucionais, programas ideológicos e máquinas eleitorais valem muito menos do que as circunstanciais alianças e compromissos com os grupos sociais que realmente contam e moldam o poder político do Brasil. Daí porque para a candidatura Tancredo Neves os compromissos e fidelidades partidárias contam muito menos (ou pelo menos contam igualmente) do que os compromissois com os militares, os empresários, os trabalhadores, a Igreja, etc. Estes, sim, os verdadeiros “partidos políticos” com poder na cena brasileira de hoje.

A “Aliança Democrática” é justamente isto.

É uma aliança política que, ao mesmo tempo
em que despreza as diferenças e fidelidades partidárias preexistentes entre PDS, PMDB, PDT, PT e PTB, pouco esclarece sobre o futuro quadro partidário do eventual governo Tancredo Neves. A reformulação partidária, um dos itens do programa desta aliança que provavelmente elegerá Tancredo Neves presidente da República, parece balizada por apenas dois limites fundamentais. Por um lado, pela presença dos militares na vida política. Por outro, pela proposição do Partido Comunista em se transformar em partido político legítimo e legal. Estes dois limites são suficientemente amplos para deixar a Tancredo Neves margem de manobra para formular as alianças de que hoje necessita para se eleger.

Na medida porém em que se pretende dotar o País de uma nova ordem política socialmente mais representativa, temporalmente mais estável e operacionalmente mais eficaz, Tancredo Neves terá que enfrentar estes dois problemas suprapartidários: a participação dos militares na política e a legalização do Partido Comunista. Se não antes, pelo menos, com certeza, depois de eleito.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 29/07/1984_