Dois acontecimentos novos poderiam, nestes dias, retirar a negociação do marasmo em que se encontra. Primeiro, seria a reativação da negociação diretamente pela Presidência da República. Na verdade, a emenda Figueiredo não é uma emenda de Figueiredo. E uma emenda da Presidência da República. Não se trata de uma proposta pessoal. Trata-se de uma proposta institucional. Que um poder da República fez a outro poder da República. Que o Executivo fez ao Legislativo. Neste sentido, a emenda Figueiredo está hoje nas mãos do Presidente em exercício, Aureliano Chaves. A emenda presidente Figueiredo é hoje emenda Aureliano também.

Nem se diga que negociação mais decidida com as oposições, incluindo inclusive contatos diretos entre a Presidência e os membros de oposição da Comissão Mista, seria ação intempestiva. Não seria não. A não ser que o presidente Figueiredo tenha dado instruções específicas em contrário, o que seria pouco provável. O dever do presidente Aureliano é justamente estimular estes contatos e esta negociação. Sua conduta tem que se pautar pelos pronunciamentos oficiais da Presidência ao povo brasileiro. E estes pronunciamentos sublinham entendimento, negociação e aperfeiçoamento da emenda. O presidente Aureliano não poderá pautar sua ação por este samba do crioulo doido cantado por políticos e porta-vozes que reinterpretam a cada audiência recôndita.
pensamento de Figueiredo. O pensamento de Figueiredo está claro em sua mensagem: favorável à negociação e ao aperfeiçoamento da emenda pelo Congresso. E ponto final. De resto, ao se ausentar do País neste momento crítico para o Brasil, o presidente Figueiredo deu mais uma demonstração de confiança em Aureliano. Se houvesse qualquer desconfiança, a viagem seria adiada. Pois não havia, como não há, urgência em viajar.

O segundo acontecimento seria a definição, pelas oposições e setores do PDS desvinculados de Maluf e Andreazza, de novos candidatos para concorrerem às eleições. “Candidatos já”, conforme proposta do senador Fernando Henrique, Comô lembrou com propriedade o governador Roberto Magalhães, quem derrubou a ditadura de Getúlio Vargas foram sobretudo as candidaturas nas ruas de Eurico Dutra e Eduardo Gomes. O deputado José Jorge Vasconcelos, de Pernambuco, um dos principais líderes do grupo pró-diretas do PDS, já articula um apoio suprapartidário a Aureliano Chaves, Marco Maciel ou a terceiro nome apartidário. Estes dois acontecimentos podem retomar a esperança que parece se esvair em direção do prorrogacionismo antimalufiano

(Joaquim Falcão)

_Recife, 22/05/1984_