À primeira vista não existe não. Mas qualquer olhar atento rapidamente constata existir semelhanças entre três fatos aparentemente isolados: a escolha do pernambucano Jarbas Vasconcelos para presidir a Comissão Mista do Congresso, o saldo de nossa balança comercial e a altitude dos governadores do PDS diante da emenda Dante de Oliveira.
O líder do governo, deputado Nélson Marchezan, dizia textualmente no início da semana a propósito da emenda Figueiredo: “O governo poderia, e eu acredito que a proposta do Presidente abrange isso, ouvir entidades representativas da sociedade, de profissionais liberais, de trabalhadores, de empresários, de entidades religiosas, a imprensa”. Bastou porém o deputado Jarbas Vasconcelos se dispor a ir à OAB, CNBB, Confederação das Indústrias, Fetape etc., para o deputado Marchezan querer vetar Jarbas Vasconcelos. Os jornais informam que o saldo comercial do País em janeiro e fevereiro não foi o anunciado pela Cacex: 1,4 bilhões de dólares. Foi bem menor: 8,8 milhões. Finalmente, um parlamentar do próprio PDS anotava que alguns governadores do PDS se declararam na imprensa a favor de eleitoes diretas, beneficiando-se de uma imagem liberal democrata. Mas na hora da votação nenhum deles comandou seus parlamentares mais chegados a votar a favor das diretas-já.
Omitiram-se.
O que une estes três fatos é a crescente distância entre o que se diz é o que se faz. A distância entre o discurso e a ação. Não se pode negar o direito do deputado Marchezan em só querer ouvir a sociedade civil por escrito, anódina e burocraticamente. Este é um ônus da democracia. Como não se pode negar o direito da Cacex de querer obter impacto com seus saldos. Sobretudo para o FMI ver. Como é do direito dos governadores do PDS só quererem eleições diretas já se o Planalto o permitir.
Diante destes fatos, porém, é dever da imprensa informar aos brasileiros sobre a distância entre o que o governo diz, e o que de fato faz. Entre o que se publica e o que acontece. Entre a intenção e a ação. Mas é sobretudo um direito da imprensa discordar. Achar que não se restaura a legitimidade das decisões políticas criando-se obstáculos para que a sociedade civil não participe dessas decisões. Achar que não se equilibram as contas nacionais com saldos imprecisos. Muito menos achar que não se constrói a imagem de um líder liberal separando seus ideais democráticos de sua ação política.
(Joaquim Falcão)
_06/05/1984_