“É engano pensar que a grande massa não sabendo ler, nem escrever, é incapaz de pensar.” Assim, dom Hélder Câmara criticou as declarações oficiais, estatísticas inclusive, que tentam esconder do povo a verdade: a verdadeira situação econômica e política do Brasil. “Unir os grandes devedores, que darão cobertura aos pequenos devedores, e também denunciar a agiotagem internacional.” Assim dom Hélder propôs que o governo brasileiro assuma nova atitude na negociação da dívida externa. “Difunde-se pelo mundo afora a afirmação de que o mundo não pode chegar ao ano dois mil com sete bilhões de habitantes e de que a humanidade precisa se livrar de pelo menos um bilhão de pessoas.” Assim, dom Hélder denunciou a corrida armamentista entre Estados Unidos e Rússia, e a atuação de organizações como o Bemfam, que no Brasil tenta esterificar as mulheres. Sobretudo as mulheres pobres.
Estas declarações foram feitas no discurso de agradecimento à Câmara dos Vereadores do Recife, que lhe concedeu a medalha José Mariano. Este ano será marcado em Pernambuco por uma série de homenagens a dom Hélder, quando completa 75 anos. E provavelmente deixa o Arcebispado de Olinda e Recife. Nas próximas semanas, grande manifestação
das bases católicas, provavelmente num estádio de futebol, deverá continuar as homenagens.
Homenagens que não escondem a admiração dos nordestinos, muito menos a preocupação de todos com a escolha, por Roma, de seu sucessor. Neste sentido, esta escolha complexa vai ganhando contornos mais claros. É que a liderança espiritual de dom Hélder, de alguma forma, dispensa, e muito, o cargo formal de arcebispo. Mesmo sem ser arcebispo, dom Hélder continuará líder religioso, brasileiro e de repercussão nacional. Para sua liderança e ação religiosa, não importa muito o cargo. Importa a natureza de sua mensagem e a evidência de sua atuação. Na medida em que dom Hélder continuar morando em Recife, como pretende, o novo arcebispo terá necessariamente de ser um religioso que continue e complemente sua obra. Ou, pelo menos, tenha por ela respeito e admiração. O risco de uma indicação saída dos setores mais conservadores da Igreja parece afastado. Pois, um novo bispo extremamente conservador dificilmente evitará que Olinda e Recife venham a ter não um, mas dois bispos. Um de fato, dom Hélder. E o outro, de direito.
(Joaquim Falcão)
_Recife, 12/04/1984_