Em Pernambuco, quando a orquestra está cansada, e depois de muito tocar, quer descansar, suspende o frevo e toca o samba. A batucada exige menos esforço do que os instruimentos de sopro. Para os foliões, o gingado do samba é mais suave do que o pular do frevo. Mas a passagem do frevo para o samba, não se faz abruptamente. Há um certo hiato, onde apenas o ritmo é marcado. Um momento de indefinição na troca dos ritmos. Neste momento, os foliões costumam gritar um refrão. Este ano, nas ladeiras de Olinda, foram dois refrões. Um mais curto e repetido: “Diretas, diretas, diretas.” Outro maior: “Um, dois três, quatro, cinco mil, queremos eleger o presidente do Brasil,” Olinda realizou com sucesso o Carnaval das diretas.

É difícil imaginar maior aceitação popular para a tese das eleições diretas. É difícil imaginar maneira mais pacífica e no entanto tremendamente poderosa para expressar um anseio popular. Como também é difícil imaginar que o Planalto e os candidatos indiretos à Presidência continuem a ignorar olimpicamente este clamor brasileiro. Não se trata de avaliar, se o Planalto e o PDS detêm instrumentos legais e força para defenderem as indiretas. É claro que detêm.

Mas qualquer análise psico-social, do agrado da Escola Superior de Guerra, demonstrará o quanto é arriscado manter por muito tempo a separação entre poder e povo. A história recente, como a do Irã, por exemplo, evidencia que uma das causas das tragédias político-socials é a incapacidade do poder perceber o que se passa em sua volta. A incapacidade dos dirigentes de se comunicarem com a Nação.

Mas não foi apenas um Carnaval de eleições diretas. Como sempre, os foliões de Recife e Olinda aproveitaram o Carnaval para a piada política. Olinda, por exemplo, deu a um dos seus blocos o título “E o preso fugiu”. Homenagem ao major Ferreira, do escândalo da mandioca.

Depois deste Carnaval não se pode acusar o Movimento das Eleições Diretas de agitação ou subversão. Nada mais pacífico. Uma pacificidade cheia de esperança e alegria. De resto, nesta terça-feira, é como diz o nome de outro bloco de Olinda: “Eu acho é pouco.”

(Joaquim Falcão)

_06/03/1984_