Cartas de intenção nunca respeitadas, metas quantitativas nunca alcançadas, inflação nunca controlada. Tudo isto desalia nossas autoridades econômicas e desmoraliza o FMI. Uma visão mais cínica das relações entre o FMI, os banqueiros internacionais e o Brasil diria que quanto pior nossa economia, melhor para os banqueiros. Pois os juros subiriam. E os lucros também. Esta visão cínica está sendo desmentida pelos fatos. Basta ver a extrema dificuldade em conseguir a adesão dos banqueiros para fechar o empréstimo jumbo. Parodiando Gilberto Freyre, quando afirmou que Recife não cresceu, mas inchou, os juros devidos pelo Brasil não decorrem do crescimento saudável da economia. Ao contrário, são juros de inchação patológica. Os banqueiros já perceberam isto. E o FMI também.
A sucessão de fracassos acaba por atingir o FMI como instituição capaz de cumprir seus objetivos publicamente declarados. E assumidos. Acaba por atingir sua credibilidade técnica e política. Por isto mesmo, na última equipe que veio ao Brasil, técnicos diretamente vinculados ao diretor geral Jacques Larrosiere tiveram como missão avaliar o desempenho da própria equipe do FMI. Para saber porque erram tanto. E o FMI fiscalizando o FMI, que fiscaliza o Brasil. Esta será provavelmente uma fiscalização ineficaz. Não porque a receita do FMI esteja errada. Como de resto afirmam todos: do vice presidente Aureliano Chaves aos empresários, políticos de oposição, líderes sindicais e a imensa maioria dos nossos economistas. Mas por outra razão singela. Mesmo que a receita estivesse certa (o que não está), o FMI não teria
condições de implementá-la. Pelos seguintes motivos, entre outros.
E ingenuidade pensar que três ou quatro burocratas internacionais em gabinetes de Brasília vão poder avaliar se os milhares de dados que lhes fornecem sobre nossa economia são ou não corretos. Podem até ser. Como podem sobretudo não ser. A valsa dos índices, em mesmo a sua manipulação já ocorreu no passado. Como constatou inclusive a Justiça de São Paulo. Quem garante ao FMI, e ao povo brasileiro, que os dados apresentados são os dados corretos? Como administrar uma economia sem plena confiança nos dados apresentados?
Para gerir uma política econômico-financeira, qualquer país necessita de instituições financeiras competentes e especializadas. Ora, o que caracteriza a atual gestão econômica do Planalto é justamente o desrespeito às próprias instituições oficiais. O Banco Central em vez de fiscalizar e punir a fraude do mercado, a subsidia. O orçamento da União não unificado é uma peneira financeira incapaz de orientar quem quer que seja. E por aí vai.
Neste contexto, podem assinar quantas cartas queiram, estabelecer quantas metas desejem. Serão provavelmente tarefas inglórias. Não se administra uma economia sem dados confiáveis e sem instituições financeiras competentes. Este o problema básico do FMI.
(Joaquim Falcão)
_Recife, 04/03/1984_