Três episódios fundamentais caracterizam, ou descaracterizam, o governo Figueiredo. Primeiro, a bomba do Rio-Centro e o consequente afastamento do ministro Golberi. Segundo, a queda de Mário Henrique e Carlos Rischbiler e a consequente ascensão da equipe de Delfim Neto. Finalmente, o terceiro, a renúncia do presidente Figueiredo a comandar a sucessão dentro do PDS. Estes três episódios têm consequência comum: o progressivo estreitamento da liderança do presidente da República. Seu projeto de abertura foi limitado pelos bolsões radicais militares. Abriu mão de conduzir a política econômica. E em seguida abriu mão de conduzir o próprio processo político.

‘Saindo de cena a Presidência, a liderança no governo foi ocupada por pessoas e grupos que partilham também de característica comum: uma representatividade social cada vez mais limitada. É difícil dizer que os bolsões radicais representam a maioria dos militares brasileiros. Que a equipe do ministro Delfim representa o empresariado, muito menos os trabalhadores ou os consumidores. Que os presidenciáveis indiretos do PDS representam os milhões de eleitores do próprio PDS. De tudo isto, o resultado líquido é apenas um: o progressivo isolamento dos militares, das autoridades
económicas e dos políticos do Planalto. E do isolamento do governo, passa-se rapidamente ao isolamento do regime.

Neste contexto aparece Aureliano Chaves. Sua proposta é evidente. Ao mencionar suas vínculações com os militares, Aureliano se propõe a retomar o diálogo explodido pelo Rio-Centro entre os militares e a nação. Ao criticar a política econômica da Seplan, propõe-se apontar para uma política econômica que tenha o respaldo dos empresários e, se possível, da classe média urbana. Ao defender eleições diretas, propõe-se a restaurar a política como a relação entre o líder e o cidadão. E não mais a relação recôndita entre os grupos palacianos e a conspiração institucionalizada.

Não é pois de espantar que nesta primeira elapa Aureliano seja contestado exatamente pelas lideranças isoladas do próprio Planalto. Sintomaticamente, as críticas que lhe fazem não são críticas abertas. São intrigas palacianas junto ao Presidente, com base em interpretações de Cleveland. Se vencer essas intrigas, a Aureliano terá de enfrentar as oposições. Enfrentar ou negociar com as oposições.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 26/02/1984_