O governador Gonzaga da Mota não fez apenas uma denúncia. Mais do que isso: apresentou fatos. A liberação rotineira dos recursos da Sudene para o governo de seu Estado foi interceptada, pela interferência, a seu ver devida, do Dnocs. Um Dnocs subordinado à campanha do presidenciável Andreazza. O deputado Paulo Lustosa (PDS-CE) confirmou a denúncia e trouxe outros fatos a público. Não somente, há anos, o Dnocs não investe em irrigação no Ceará, como inclusive não paga as contas que deve às empresas estaduais, como a Companhia de Eletricidade do Ceará. Há anos que a quase totalidade dos recursos do Dnocs vai para o Rio Grande do Norte, para a Barragem do Açu, onde seria muito forte o interesse do Ministério do Interior. A irritação dos políticos pedessistas do Ceará com o Ministério do Interior explica-se também pelo fato de o governo do Estado, prevendo a liberação rotineira destes recursos, ter contratado compra de equipamentos para apressar a solução do angustiante problema da sede dos cearenses. Agora tudo para. Esta denúncia, a se confirmar, levanta dois aspectos importantes.
Por um lado, permitirá aferir desde logo a sinceridade ou não dos discursos do candidato. Trata-se de um discurso em favor do Nordeste, ou em favor apenas de um determinado Nordeste? Mais ainda, Trata-se de um discurso
em favor da descentralização do poder federal, ou de um discurso em favor da descentralização confiável? Na verdade, quase todos os discursos dos candidatos se parecem. São todos a favor do Nordeste, da abertura política, da renegociação da dívida externa, da retomada do crescimento econômico, da justiça social etc… etc… A única possibilidade para saber se o discurso é ou não para valer é verificar se a campanha do candidato leva ou não a sério seu próprio discurso. Este é o desafio que Gonzaga da Mota coloca ao presidenciável Andreazza.
O segundo problema é mais profundo. A estatização da economia brasileira que tanto atormenta os empresários é mais ampla do que se percebe. É também estatização da política. É como neste caso pode ser, estatização da própria campanha eleitoral. O abuso do poder econômico no processo eleitoral estar-se-ia processando através dos recursos e da burocracia estatal. Não tem democracia que aguente uma campanha eleitoral estatizada.
O Brasil, o Ceará sobretudo, espera que o ministro Andreazza e o governador Gonzaga da Mota esclareçam com nitidez o que está se passando.
(Joaquim Falcão)
_Recife, 23/02/1984_