Os militares vão votar. Em eleições diretas. Vão escolher, em maio, o novo presidente do Clube Militar, entidade que congrega mais de vinte mil militares espalhados por todo o Brasil. Da ativa ou da reserva. Do Exército, sobretudo. E também da Marinha e da Aeronáutica. Estas eleições revestem-se de importância fundamental. Haverá duas chapas concorrentes, cada uma com programa próprio. A chapa da atual situação, comandada pelo general Tinoco, tem desde já o apoio ostensivo do ministro do Exército, o general Válter Pires. A chapa de oposição, encabeçada pelo general da reserva Andrada Serpa, congrega o apoio dos mais diversos setores. Dos setores mais conservadores aos setores mais liberais. Entre seus principais aliados, Andrade Serpa conta com Candau da Fonseca e Peri Beviláqua.

A principal proposta da chapa de oposição é retomar as tradições do Clube Militar. Tradições que sempre o transformaram em importante centro de estudos e debates sobre as grandes questões nacionais. Não se trata de ser apenas uma instituição recreativa. Trata-se de ser sobretudo uma instituição cultural. Com isto pretende-se discutir a atual política econômica do governo federal, a institucionalização política, o centralismo da União, a dependência internacional diante dos banqueiros etc… Discutir inclusive a atualização do conceito de segurança nacional como soberania militar, política e econômica do País.

O general Válter Pires reuniu em Brasília, faz pouco tempo, centenas de militares para se pronunciar contra o que entende ser a políticação do Clube Militar. O que implica em apoiar a atual diretoria. Na verdade porém, qualquer que seja a chapa vencedora, as consequências scrão inevitavelmente políticas. Se ganhar o general Tinoco, o clube continuará aceitando a atual política econômica do governo. Seja por aceitação expressa, seja por aceitação tácita. Esta aceitação é inevitavelmente política. Como também se ganhar o general Andrada Serpa, as eventuais críticas à política de Delfim Neto, serão também críticas políticas. Quer dizer, o argumento contra a eventual políticação do Clube Militar é um argumento que traz dentro de si nítidas consequências políticas. E um argumento político.

De resto, qualquer leitura atenta sobre a história de nossa República constata o inevitável. Os militares sempre participaram da política. Daí por que o desafio principal é sobretudo o da participação política a favor da democracia.

As eleições para o Clube Militar vão revelar mais claramente o que pensam, sobre o Brasil de hoje, vinte mil militares.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 21/02/1984_