O que está em jogo em Brasília nestes dias não são apenas as eleições diretas e indiretas. E algo mais amplo. Está em jogo o futuro das relações entre os militares e a vida civil. Entre os militares e a política. Até bem pouco tempo, estas relações caminhavam para progressiva separação. Os militares pretendiam se tirar mais e mais das atividades políticas que exerceram nos últimos anos. Pretendiam se limitar mais e mais às atividades constitucionais. Ao respeito escrito à Constituição. Agora, este caminho está conturbado. A reunião com os presidenciáveis é um indicador.

Por razão muito simples. O estrito respeito à Constituição exige também o estrito respeito ao processo estabelecido pela própria Constituição para modificar a Constituição. Respeitar a Constituição, não interferir na vida política, é também respeitar as modificações constituci-
nais da própria Constituição. É não interferir na competência exclusiva dos congressistas de mudar a Constituição conforme lhes permite a própria Constituição. Essa competência exclusiva é dos congressistas. E de ninguém mais. E de acordo com a Constituição. A reunião com os presidenciáveis evidencia-uma interferência dos militares neste processo.

A atitude dos militares de permanecerem na política, e portanto responsáveis pela crise político-social e econômica que o Brasil atravessava, resulta do receio das eleições diretas provocarem a argentinização do País. Por mais que este receio seja infundado (como a maioria responsável dos políticos de oposição e do
próprio governo considera), ele existe. É fato real, e novo. Que desafia não só a paciência e imaginação dos políticos, mas dos militares também. Resta saber se este receio é quem vai pautar daqui para frente as relações entre o sistema militar e a vida civil.

Neste sentido, se por um lado ser contra as eleições diretas afasta o risco da argentinização do País, por outro não resolve o problema fundamental da sucessão presidencial. Este problema é muito simples. Os candidatos que parecem ter o apoio majoritário dos convencionais do PDS não o tem da população. Nem o tem dos que apoiaram os militares em 64: os empresários, os credores internacionais, as classes médias urbanas e setores expressivos dos próprios militares e da burocracia federal.

Em outras palavras: ser contra as eleições diretas não evita que o Pals seja entregue a políticos de comportamento antiético, e compromissos com o fracasso do modelo econômico social. Pode tranquilizar os militares. Dificilmente tranquiliza a Nação. O desafio de hoje dos militares é o seguinte: como, sendo contra as eleições diretas, evitar que a Presidência da República seja capturada por presidenciáveis que negam valores éticos mínimos. Valores tanto dos militares, quando dos civis.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 16/02/1984_