É fato inédito. O governador Roberto Magalhães demitiu de uma só vez todos os integrantes da Delegacia de Roubos e Furtos: o delegado e cerca de setenta agentes. Diplomaticamente o governo alegou estafa de uns e necessidade de reciclagem profissional de outros. A história porém é diferente.

Na semana passada, o vereador Pedro Eurico (PMDB), ex-presidente da Comissão de Justiça e Paz, formalizou junto ao Secretário de Segurança grave denúncia. O operário José Luiz de Araujo tinha sido ilegalmente preso pela polícia. E mais, Tinha sido torturado no pau-de-arara, esbofeteado, golpeado com borracha, cordas amarradas em seu pescoço etc. Na frente do secretário de Segurança, ao lado do vereador, José Luiz tirou a camisa e exibiu as marcas de tortura. Tudo foi confirmado. O governador não hesitou, demitiu todos.

A violência da polícia é irmã gêmea da violência do assaltante. Ambas agravadas nestes últimos anos pela recessão econômica, pela impunidade oficializada a partir do Riocentro, pela ineficácia do Judiciário e pelo autoritarismo político. Na verdade, quando as autoridades políticas desprezam o voto popular, assentam seu poder em outras bases. O atual regime tentou no passado assentar seu poder na força policial-militar e no modelo econômico. Não deu certo. A segurança dos cidadãos e a soberania nacional, a reativação da economia,
dependem agora da mudança do modelo econômico, da reformulação das forças policiais e do novo papel dos militares. O que dificilmente seria possível se o poder do governador e do vereador não advier diretamente das urnas. Do voto direto. Neste episódio, ambos, governador e vereador usam na plenitude poder que lhes veio de uma eleição popular. Poder que lhes assegura independência política, autoridade moral e apoio nacional.

No passado, durante algum tempo, vozes radicais qualificaram a atuação da Comissão de Justiça e Paz de Pernambuco de subversiva e anti-regime, Enganaram-se. Era, como ainda é, atuação a favor dos direitos humanos, o que está acima dos partidos, das leis autoritárias dos regimes.

Ás dificuldades que o governador Roberto Magalhães está enfrentando com o aparelho de segurança do Estado são conhecidas de todos. Não são porém dificuldades exclusivas. Franco Montoro também as tem. Leonel Brizola, idem. O que porém distingue Pernambuco neste momento dos demais Estados é a vontade política firme, do governo e da oposição, de com o apoio dos cidadãos enfrentar de vez este problema.

(Joaquim Falcão)

_05/02/1984_