Nunca, nos últimos 10 anos, a violência contra os trabalhadores rurais foi tão grande. Esta denúncia documentada é de José Rodrigues, presidente da principal e independente associação dos trabalhadores rurais: a Fetape. A violência rural é dupla. É violência física e violência econômica. Uma não se separa da outra. Ao contrário. Esta estimula aquela. Por exemplo. Nos últimos dias foi assassinado o trabalhador Antônio Santos, no Engenho Caraúbas, em Pau-D’Alho. Sintomaticamente, esta é a região onde o problema do desemprego é maior. Onde o assassinado era parente de presidente de sindicato de trabalhadores. Onde, segundo Rodrigues, o Engenho Caraúbas é acusado de não cumprir as determinações legais do dissidio coletivo.

Nunca o desemprego foi tão grande na Zona da Mata nesta época de corte de cana. Em geral, época de pleno emprego. A super-oferta de mão de-obra explica-se por muitos fatores: a seca, o desemprego no Recife, a pecuarização das áreas mais agriculturáveis do Agreste reduzindo brutalmente a mão-de-obra aí necessária. Alguns fornecedores de cana de usínas, premiados pelo governo federal, que entre 82 e 84, numa inflação de 303 por cento, aumentou o preço da cana, açúcar e álcool em apenas 147 por cento, saem fora da lei. Não pagam os salários legais. Nem prestam a assistência devida também por lei aos trabalhadores. E sobretudo, em vez de utilizarem os trabalhadores.
res locais, empregam, rotativamente, os trabalhadores volantes, os bóias-frias rurais. Estes têm poucas condições de defender seus direitos. Aqueles, sem emprego, são obrigados a deixar a localidade. Perdendo a terra que legalmente ocupavam por décadas. Neste clima, a violência física prospera quando os trabalhadores se organizam para defender seus direitos econômicos. O governador Roberto Magalhães tem mandado apurar os casos de violências físicas. Inclusive através de delegados regionais, em princípio mais independentes que os delegados municípais.

A violência rural, porém, não é apenas caso de polícia. Antes de tudo é caso de opção política e de medidas econômicas. Para os líderes do PMDB, colocar culpa na política econômica da Seplan e no fato dos governadores não serem governadores (serem apenas delegados de província) explica, mas não justifica. Afinal de contas, a política econômica é do PDS. O governo federal e estadual são do PDS.

Estranho País o Brasil. Onde defender o princípio político básico do Ocidente — eleições diretas — e onde exigir o cumprimento de uma legislação social mais adequada, ou é fazer agitação, ou, infelizmente, é ficar desmprega-do.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 02/02/1984_