Se o cidadão não se alimenta, definha, colapsa e morre. Se não respira, também. Para se continuar andando, trabalhando sofrendo, rindo, criando, vivendo enfim, o ser humano precisa de ar e comida. Ou seja, precisa se comunicar com o meio ambiente. Comunicar-se com aquilo que lhe cerca. A força e saúde de um cidadão é proporcional à sua capacidade de transar bem seu meio ambiente. De onde lhe vem ar e comida. Assim, também os regimes políticos.
A força e saúde de um regime político é proporcional ao ar e comida que recebe de seu meio ambiente. No caso, ar e comida é o apoio dos cidadãos. Em país independente como o Brasil, o regime político vive do apoio que recebe dos cidadãos brasileiros. Por isto mesmo, Geisel e Golberri conceberam a abertura política como a reabertura dos canais de comunicação entupidos, entre o poder e os cidadãos. Para passar ar e comida. Ou seja, passar o apoio popular. Ou pelo menos o apoio da classe média urbana. Como em 64.
Um regime político não é um ato de solidão. Ao contrário é basicamente um ato de convivência entre o poder e os cidadãos. Mesmo assim, esta semana o governo entupiu vários canais de comunicação com seus cidadãos. Com os brasileiros.
Junte-se e colecione-se fatos. Primeiro foram as pesquisas da Gallup afirmando que mais de 90% dos brasileiros querem eleições diretas. Depois foram as multidões da praça da Sé, em São Paulo, e do largo do Amparo, em Olinda. Depois foi o Presidente proibindo os fotógrafos de fotografarem as audiências presidenciais. Foi o ministro Abi Ackel afirmando que os artistas são pagos para alegrar comícios. Foram Maluf e Andreazza apoiando a política econômica da Seplan. E de quebra, foi o aumento da gasolina. Junte-se tudo, e pergunte se: o que fatos tão dispares têm em comum?
A resposta é fácil. Através destes fatos, o governo entupiu os canais de comunicação com os eleitores que querem votar; com os fotógrafos que querem fotografar; com os artistas que querem livremente cantar; com os empresários e trabalhadores que querem trabalhar sem recessão. Quer dizer, esta semana o regime aumentou o risco incalculável da solidão insuficiente.
(Joaquim Falcão)
_Recife, 29/01/1984_