Existem pelo menos duas grandes questões na pauta da sucessão presidencial. Seja sucessão por eleições diretas, seja por eleições indiretas. Diante das quais todo presidenciável terá que se posicionar e agir. Do contrário, a candidatura naufraga, Pois são questões que mexem com muitos interesses: na área militar e financeira. A primeira grande questão da sucessão hoje é a questão militar. Quem colocou esta questão na pauta foi o presidente Raul Alfonsin. Paradoxalmente, Alfonsin se transformou, sem querer, no maior incentivador das eleições indiretas. Os militares brasileiros andam a temer que o Brasil vire Argentina. E que a caça das bruxas de lá, chegue até cá. Os argumentos lógicos, e as contínuas declarações de políticos de oposição como Brizola, Jarbas Vasconcelos, Fernando Henrique e outros, afirmando que o Brasil não é argentino, não têm sido suficientes para amortecer o receio militar. Como consequência, Alfonsin se transforma também em cabo eleitoral de Paulo Maluf. Pois as resistências militares ao nome de Maluf começam a simplificar a sucessão: ou Maluf ou a argentinização do Brasil.

A segunda grande questão é a questão da dívida externa. É ingenuidade pensar que credores de mais de 100 bilhões de dólares
assistirão impávidos a troca de ministros. Se houver eleições diretas, esta interferência será menor e mais sutil. No caso das indiretas, da composição de bastidores, do conchavão, é óbvio que os credores internacionais gostariam de ter garantias do futuro presidente de que o Brasil não declarará moralória unilateralmente. Não é por menos que Paulo Maluf tentou falar com Reagan. O que um deputado brasileiro tem a dizer ao presidente dos EUA? Provavelmente, assegurar que, se eleito, paga tudo. Sintomaticamente, Roberto Campos, conexão internacional mato-grossense, já apóia Maluf. Os demais candidatos — Aureliano, Andreazza, Beltrão e Maciel — ainda não explicitaram seus contatos na área das finanças internacionais. O que não quer dizer que não os tenham. Pois são vitais nas eleições indiretas.

As eleições diretas provavelmente exigiriam que os candidatos publicamente assumissem compromissos. Inclusive com relação a questão militar. Em geral, os compromissos públicos são mais duradouros do que os dos bastidores.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 22/01/1984_