Continuam, silenciosamente, no Ministério do Interior, os estudos para se desviar o curso das águas do rio São Francisco. Isto mesmo; em vez do São Francisco seguir o caminho que Deus lhe deu, o governo pretende à altura de Sobradinho desviar boa parte de suas águas. Encaminhá-las para o sertão do Ceará, Rio Grande do Norte e Paralba, Construindo cerca de mil quilômetros de canals, dezenas de estações elevatórias e barragens. Vencendo montanhas, atravessando vales. Pegando aqui e ali carona no leito de outros rios. Tudo em nome de vencer definitivamente o flagelo da seca.

Os leitores paulistas e cariocas têm todo o direito de ficar pasmos. Incrédulos. Preocupados mesmo. Os nordestinos também estão. Pois um projeto farônico como este comporta pelo menos duas indagações. A primeira é simples: onde um Brasil falido, com um setor público estrangulado, estatais contidas, banqueiros estrangeiros de ressaca, vai arranjar recursos para tanto? E se arranjar, quem os paga de volta? A segunda é mais técnica: será esta a solução adequada? Por exemplo, O policial de irrigação do São Francisco, neste leito que Deus lhe deu, é de cerca de um milhão de hectares irrigáveis. Até agora, o Ministério do Interior só aproveitou 4% deste policial, cerca de 40.000 hectares. Não seria mais sensato e barato utilizar este potencial, em vez de criar outros artificialmente? Irrigar aqui e hoje. Em vez de acolar e amanhã? Em princípio o projeto utilizaria o excedente energético do rio. Mas será que já existem estudos que concedam a esta hipótese um mínimo de realidade? A energia suficiente e ainda barata que o São Francisco fornece, não corre o risco de ser afetada?

Um dos argumentos contra as eleições diretas é que elas sacrificam o Tesouro Nacional. São muito caras, O País não teria dólares e cruzeiros para tanta democracia. Mas eleições indiretas podem ser mais caras ainda. Quem garante que o ministro presidenciável Andreazza não sofra pressões para desvilar billionariamente o São Francisco e capitalizar esta decisão em votos de convencionais? Não custa lembrar os desastres da Transamazônica, da Ferrovia do Aço, da Perimetral Norte. Onde o País enterrou improdutivamente bilhões de dólares. Todas as decisões tomadas sem participação pública. Um projeto como este só deveria ser aprovado pelo Congresso. E pela Assembléia de cada Estado interessado. Aliás, os próprios estudos preliminares, que são caríssimos, só deveriam ser iniciados depois de publicamente comprovada uma viabilidade mínima.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 17/01/1984_