Há que se reduzir o déficit público. É uma das causas da inflação. Ninguém de bom senso pensa em contrário. O que se discute porém é: como fazê-lo? Cortes indiscriminados e decididos autocraticamente, não contribuem para diminuir a inflação. E de quebra, destroem o que a administração pública brasileira já conquistou em eficiência, profissionalismo e seriedade. Um dos setores mais atingidos por este processo é o da pesquisa científica e tecnológica. Paradoxalmente, no momento em que órgãos como o CNPq, de reputação internacional, iniciam uma maior democratização de suas decisões, têm seus orçamentos autocraticamente reduzidos. Como a Finep, também. Ambos com dificuldades em manter seus programas. Quanto mais iniciar novos, já absolutamente necessários.
Não se pode pensar uma nação, um país independente, sem garantir um mínimo de pesquisa científica e tecnológica nacionalmente autônoma. Nos piores momentos da ditadura argentina, o regime protegeu e impediu através de condições de trabalho suficientes, que seus físicos deixassem o país. Hoje, a Argentina tem a bomba atômica. Não pretendemos defender a bomba atômica. O Brasil deve ter objetivos científicos e tecnológicos distintos. Mas a essência do exemplo permanece. Não se
pode pensar em pais independente sem um mínimo de pesquisa de base. Tanto na área de ciências exatas, como na de ciências humanas e sociais. Pesquisa desenvolvida no País, e por pesquisadores nacionais.
A comunidade científica brasileira começa a perder seus melhores cérebrois. Não somente por causa do estrangulamento orçamentário das agências federais e estaduais do fomento à pesquisa. Mas também pelo achatamento dos salários. Há cinco anos atrás, um pesquisador de nível médio ganhava cerca de mil e quinhentos dólares. O que já estava abaixo do mercado internacional. Hoje, ganha o equivalente a seiscentos dólares. A redução indiscriminada e autocrática do déficit público tem consequências perversas. O Brasil passará a ter uma ciência e tecnologia “de aluguel”. Ficando na dependência da política científica e do preço dos países concorrentes. E de sobra, exportando cérebrois, transfere a estes mesmos países concorrentes o grande investimento em recursos humanos científicos que fez nos últimos anos. De graça. Ou melhor, de desgraça.
(Joaquim Falcão)
_29/12/1983_