Existe uma amarga semelhança entre o desaparecimento da Taça Jules Rimet e a situação econômica que o Brasil atravessa hoje. Sobretudo se compararmos dois aspectos. Primeiro: a conquista da Copa do Mundo, a chegada da Taça na década de setenta, correspondeu ao auge do milagre econômico. Correspondeu à expansão (que agora se sabe artificial) da nossa economia. Como agora, o desaparecimento da Taça corresponde ao auge (Queira Deus!) da recessão econômica. Antes, estávamos no auge do Prá Frente Brasil. Como agora estamos no auge do Prá Trás Brasil. Segundo: o Brasil nunca percebeu a conquista da Copa como vitória isolada de um punhado de jogadores e técnicos. Percebeu sempre como vitória coletiva. Vitória da “corrente prá frente”. Vitória da qual procurava se beneficiar o regime político e a política econômica. Vitória não apenas nos campos de futebol internacionais, mas também nos balanços dos bancos estrangeiros, que, docemente, se curvavam diante da ilha de prosperidade brasileira.

Quer dizer, na década de setenta, todos os brasileiros, mesmo os que estavam politicamente contra o regime, estavam a favor da corrente prá frente. Da chegada da Taça. Todos se beneficiavam, ainda que desigualmente, do milagre econômico artificial. Tal como agora, todos os brasileiros estão contra o imposto desaparecimento da Taça. Como estão inclusive os que são a favor do regime contra a política econômica de recessão. Dizia outro dia um empresário de sucesso: “Nunca houve na
história do Brasil tamanha unanimidade e identidade de pontos de vista entre patrões e empregados. Estão todos contra a política econômica de recessão.” Assim como a chegada da Taça foi simbolizada pela participação de todos, assim seu desaparecimento é um desaparecimento imposto a todos. Tal como a recessão que é imposta a todos.

Diante de uma economia que se degringola, de um parque industrial que se desnacionaliza, de um desemprego que galopa, de uma violência urbana agravada, a Taça Jules Rimet resolveu se mandar. Simbolicamente desaparecer. Simbolicamente dizer que aquela época chegou ao fim.

Para 1984, o Brasil precisa quebrar esta cadeia de comparações amargas. Comparações que o leitor poderá por conta própria desenvolver, tamanhas são as semelhanças simbólicas entre, de um lado, milagre e recessão econômicas, e de outro, conquista e desaparecimento da Taça Jules Rimet. É preciso quebrar esta sucessão de analogias, que nos fazem pensar que, a esta altura, já derreteram a Taça, transforma-ram-na em barras de ouro, e levaram para fora do País. Tal como podem estar fazendo com as riquezas conquistadas com muito esforço pela maioria dos brasileiros: trabalhadores e empresários. Civis, militares e religiosos. Do governo e das oposições.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 27/12/1983_