Nas últimas semanas, Arraes e Brizola, que vinham mantendo polida distância regulamentar, estreitaram contatos. Interpretações mais apressadas sugeriram que Arraes estaria prestes a entrar no PDT, insatisfeito, como notoriamente está, com os rumos do PMDB pernambucano. E do PMDB nacional também. Outras, menos apressadas, sugeriram que os contatos visavam à criação do futuro Partido Socialista Brasileiro. Arraes desmentiu categoricamente que os contatos mantidos objetivassem qualquer destes fins. Ou começos. O episódio morreria aí, se não fosse indicativo de aspectos fundamentais, a partir dos quais se compreende melhor a política pernambucano e nacional. São três os aspectos a considerar.
O primeiro é de âmbito pernambucano. Desde a campanha de 1982, Miguel Arraes discorda da orientação do PMDB de Pernambuco. Mais ainda, seus correligionários sistematicamente denunciam esforços de dentro das próprias oposições, que visam a isolar sua liderança. Sua resposta inicial foi a expressiva votação que teve como deputado federal mais votado do Estado. Resposta que se desdobra agora em ações que visam a romper este isolamento. Pois tentar isolar o concorrente, é estratégia natural de qualquer ator político. Como o é também tentar romper o isolamento.
A considerar também são os problemas que
a eventual aliança Arraes/Brizola fatal-
mente teria de enfrentar. A nível nacional, a candidatura do presidenciável Lionel Britzola passa pela conquista da confiança do regime. Se não confiança, pelo menos neutralização de setores mais conservadores das Forças Armadas. Uma aliança com Arraes neste momento colocaria lenha na fogueira. Um partido Brizola/Arraes é tudo o que setores mais conservadores querem para uma radicalização do processo político. A nível local, o líder do PDT, Armando Monteiro Filho, muito respeita a Miguel Arraes. Mas difícilmente tomará a iniciativa de estreitar relações partidárias. Ao contrário, o mais provavel é que o faça com Jarbas Vasconcellos. Ou mantenha a atual política de integração com independência, entre PDT e PMDB de Marcos Freire.
Finalmente, o último aspecto a considerar é que a cada dia fica mais nítida a insuficiência do atual quadro partidário aprisionado por uma legislação artificial.
Um quadro partidário incapaz de representar toda a pluralidade social, regional e ideológica da sociedade brasileira. A insatisfação de Arraes com os atuais rumos do PMDB, não seria pois uma insatisfação pessoal. E algo mais nacionalmente representativo.
(Joaquim Falcão)
_Recife, 23/12/1983_