Ás vésperas de 1984, o Brasil está em desacordo sobre muitos assuntos: sucessão, inflação, dívida externa. Em compensação está de acordo sobre pontos vitais. Querem um exemplo? O Brasil está de acordo que a política econômica do regime militar de 1964 destroçou um dogma lapidar da teoria econômica do capitalismo. O dogma de que capital gera emprego. Pode ser que gere, alhures. No Brasil, não gerou não. Pois como justificar a galopante dívida externa, se não em nome de dólares que investidos como cruzeiros gerariam empregos? Como justificar o saldo florescente antes, mas ainda importante hoje, das cadernetas de poupança, se não em nome do capital necessário para as construtoras gerarem casas e empregos? Como justificar os incentivos da Sudene, se não pela capitalização necessária para o Nordeste empregar seus flagelados? E como, agora, avaliar tudo isto, diante do desemprego crescente? Na cidade e no campo? No jovem e no adulto? Não tem saída. A avaliação é uma só. No Brasil, depois de 64, o capital gerou mais juros do que emprego.
É por que isto? Que milagre é essé? Ainda na década de setenta, sob a batuta de Eugênio Gudin, os grandes empresários deram seu diagnóstico; o culpado são as estatais. Basta ver a impunidade improdutiva da Transamazônica, da Açominas, o hiperdimensionamento de Itaipu e por aí vai. Ou seja, as cstatais investiram muito e produziram pouco. Pernambuco, Estado flagelado, regorgita com um centro de convenções de mais de vinte milhões de dólares. Com um terminal rodoviário nunca funcionado. Com um semipronto porto industrial de Suape para as indústrias do capita-
lismo que não houve. Este diagnóstico colou. Mas, no fundo, é apenas meio-diagnóstico. Falta-lhe outra metade.
Na verdade, um dos culpados é o pacto entre a grande estatal e o grande empresário. Ambos embarcaram na canoa furada do macroprojeto. A grande empresa privada cautelosa, há muito tirou seu time de campo. Em vez de gerar empregos, anda gerando juros para remunerar seu capital. Às que não deram certo, e as estatais, amargam dificuldades financeiras sérias. Pagam juros é não criam empregos.
Tudo isto absolutamente claro ao brasileiro, ainda não está claro para algumas autoridades do governo federal, que insistem no macroprojeto. O Ministério do Interior insiste que a Sudene leve adiante a construção de um novo rio São Francisco. Pretendem desviar o curso do rio, e inundar o sertão. Provavelmente quando a seca já estiver terminada. E o ministro Galvês, torpedeia o projeto de Hélio Beltrão a favor da micro-empresa, dizendo textualmente: “Com o estatuto da micro-empresa, muitos grandes empresários iam querer ser micro, e nenhuma empresa se esforçaria para crescer.” Ora, bolas. Mas não é isto o que o Brasil precisa? Pois quanto mais cresceram os macro-projetos das macro-empresas, públicas e privadas, mais não desapareceu o emprego brasileiro?
(Joaquim Falcão)
_Recife, 06/12/1983_