O governador Roberto Magalhães (PDS) decretou intervenção no município de Ipojuca. Afastou o prefeito Amaro França (PMDB), substituindo-o por um promotor público. A primeira vista poderíamos estar diante de uma disputa política entre PDS e PMDB. Não estamos não. Ipojuca fica na Zona da Mata, a 5 km do Recife. Lá o PMDB teve grande vitória: cerca de 7 por cento dos votos. Ocorreu porém que o candidato a prefeito mais forte do PMDB era Marcos Queiroz. Na última hora, sua candidatura foi inpugnada por Nilson Gibson, por motivos formais. Impugnação acatada pelo Tribunal Regional Eleitoral. Seu vice-prefeito, Amaro França, concorreu de improviso. E ganhou. Ganhou mas não tem condições para ser prefeito. Nem éticas nem administrativas.
Há algum tempo que os vereadores do PMDB, de Ipojuca e os próprios líderes do partido, como Sérgio Guerra e Fernando Coelho, tentaram controlar a situação. Duas providências foram encaminhadas. Alertou-se o Tribunal de Contas de Pernambuco sobre as irregularidades que estavam sendo cometidas. Irregularidades financeiramente de pouca monta. Ao mesmo tempo em que se iniciou na Câmara de Vereadores, controlada pelo próprio PMDB, um processo de impeachment.
O tribunal apurou devidamente as denúncias. Comunicou ao governador que optou então pela intervenção. O processo de impeachment con-
tínua correndo. Deverá ser votado nesta semana que entra. O prefeito deverá ser impedido por vereadores do PMDB e do PDS juntos. Qualquer que seja o caminho, o resultado será o mesmo: assumirá o vice-prefeito, do PMDB, eleito em novembro. Daí porque, provavelmente, o governador suspenderá a intervenção logo que o impeachment seja decretado.
Pernambuco tem mais de cento e cinquenta prefeituras municipais. Estatisticamente é inevitável que este tipo de problema ocorra e venha a ocorrer. O importante neste caso de Ipojuca é que ele pode representar um padrão de atuação para os casos futuros. Tanto para as prefeituras do PMDB quanto para as do PDS. O que se espera de dirigentes de ambos os partidos é que em nome da solidariedade partidária ou dos votos para 1986, não escondam as irregularidades que estejam sendo cometidas por correligionários. O país tem pago um preço muito alto a nível federal pelas denúncias, irregularidades, desmandos, desvios e acusações não apuradas. A impunidade fruto da solidariedade partidária, militar, ou administrativa, não raro descamba na crise moral do governo e do regime. E sobretudo não é solidariedade nem para com o eleitor, nem para o contribuinte.
(Joaquim Falcão)
_04/12/1983_