Toda a estratégia do Planalto, no que diz respeito à sucessão presidencial, parece aprisionada por um duplo receio: ou Maluf ou Brizola. Se forem eleições indiretas, Maluf ganharia. Se diretas, Brizola. Em ambos os casos, o grupo do Palácio do Planalto se sentiria derrotado e o regime de 64 acabaria por caminhos não lentos, nem graduais, muito menos seguros. Ora, vamos enhamos. Ambos são dois fortes candidatos. Cada um em sua especialidade. Mas balizar a sucessão por este duplo receio é simplificar demais o que é muito complexo. Muita água vai rolar. Uma das consequências positivas da campanha para eleições diretas é justamente esta. Evitar que o País seja vítima de raciocínios e previsões prematuramente simplistas.
O que parece muito claro é que a sucessão é processo marcado por três características principais. Primeiro: não existe uma posição definida do PDS. Trata-se de um partido repartido: ideológica e politicamente. Com lideranças, estilo e bases partidárias concorrentes. A cada novo momento de decisão torna-se ainda mais previsível o comportamento do PDS. Basta ver 2.045, Passos Porto e a miríade de opiniões contrastantes sobre as declarações do presidente na Nigéria. Segundo: não existe uma posição definida do PMDB. Trata-se de um partido repartido. Basta ver todas estas disputas em torno da convenção do
próximo dia 4. O partido tem uma palavra de ordem por eleições diretas, mas tem grupos importantes jogando na conciliação através das eleições indiretas. De resto, todos os convencionais do PMDB andam se incomodando com uma questão fundamental. Se as eleições forem diretas, o dr. Ulysses é o melhor candidato? Será capaz de enfrentar um Brizola ou um candidato mais jovem do PDS? Mas, como imaginar eleições diretas, sem dr. Ulysses na cabeça?
Finalmente, a terceira característica é que os casuísmos eleitorais que redefiniram as regras dos jogos, para as eleições de 1982, foram impostos ao País através dos dispositivos autoritários que submetiam o Congresso ao PDS. Agora, a via da legalidade constitucional autoritária está muito amortecida. As regras do jogo não podem mais ser mudadas unilateralmente. Daí, muito claro. A sucessão é um grande processo de negociação nacional. Negociação entre os diversos grupos dos partidos internamente. E depois entre os partidos entre si. Em seguida entre os partidos e os militares. E por fim, entre todos estes e os cidadãos brasileiros. Que querem eleições diretas.
(Joaquim Falcão)
_27/11/1983_