No interior de Pernambuco, costuma-se dizer que não existe “brabo liso”. Ou seja, quem não tem tostão e está liso, dificilmente pode ser brabo. Do mesmo modo, num Brasil onde os Estados e municípios vivem sem caixa, de pires na mão, dificilmente governadores e prefeitos podem ser brabos. Pois estão mais lisos do que nunca. O governador Roberto Magalhães quer abrir uma exceção. Magalhães foi claro. Acusou o BNDES de discriminar Pernambuco. E mostrou dados. De 1975 até hoje, o banco financiou 130 bilhões para a Bahia em projetos de infra-estrutura e apoio à pequena e média empresa. Pernambuco recebeu no período apenas 30 bilhões. Coincidentemente, as últimas administrações do BNDES estão em mãos de baianos indicados por Antônio Carlos Magalhães. Disse também que o banco não tem apreciado devidamente os projetos apresentados por seu governo: apoio a Suape e à construção de rodovias do milho, leite e feijão no agreste e sertão.

Não é segredo para ninguém que o BNDES andou com problemas de caixa. Sem liberar nenhum recurso. Como também não é segredo para ninguém que a Seplan se não proibiu legalmente novas contratações as proibiu de fato. Através de dois mecanismos. Não liberando os recursos para o próprio BNDES e criando dificuldades burocráticas
desnecessárias. Ainda recentemente a resolução 831 do Banco Central criou uma série de novas instâncias — o Comor e o Ciasem — que vão encompridar a via crucis que qualquer governador terá de fazer para ter seu projeto aprovado. Se tiver sorte.

Orá, Pernambuco versus BNDES revela dois aspectos perversos da atual política econômica do regime. Primeiro, fica claro que a concentração das decisões econômicas nas mãos da Septan, acaba por ser destrutiva das instituições políticas e econômicas. Pois se por um lado obriga o governador a botar a boca no trombone, por outro reduz o BNDES a bode expiatório das decisões de que participa. O que no mínimo é perverso para com um banco que conquistou nas últimas décadas devido prestigio nacional e internacional. Segundo, fica claro também que está chegando ao limite do tolerável a capacidade de os governadores serem apenas o braço policial da política econômica do governo federal. A recessão inútil que está aí, como concordam Mário Simonsen e Maria da Conceição Tavares, está transformando os governadores em meros agentes da repressão à fome e ao desemprego. Para que?

(Joaquim Falcão)

_23/11/1983_